MIL INVAND/A
VOL. IN 4
2021
e EXDEDICN
LAUDELINAS
VOLUME 41. NÚMERO 4.20214
ISSN 2675-6803
SELO EDITORRAIE- MIRADA
RECIFE - PERNAMBUCO
EDITORA CHEFE CAPA
Taciana Oliveira Águeda Amaral - Fotografia de
“Desde que o Samba é Samba”
CONSELHO EDITORIAL
Argentina Castro T|USTRAÇ ÕES
Liliana Ripardo Sofia Nabuco
Taciana Oliveira
BESICNERREDILTORIA
Rebeca Gadelha
o E
1*
e
"
>
INDICE
APRESENTAÇÃO
RESÍDUOS
Assionara Souza
A LUTA DESSAS MULHERES
NEGRAS QUE VIVEM
EM MIM
Thara Wells Corrêa
[AS AUSÊNCIAS ECOAM
EM MEUS OLHOS]
Carmelita Zuzart
POR UMA GRAÇA
ALCANÇADA
Cinthia Kriemler
SUGESTÃO DE LEITURA:
PRESOS QUE MENSTRUAM
Taranda Barbosa
TRINTA ANOS DEPOIS
Mariana Tanelli
OS POROS NOS OSSOS
Nara Vidal
11
14
23
25
7
33
35
BALA DE MEL
Silvana Guimarães
AUTO DE NATAL
Adriane Garcia
Manuella Bezerra de Melo
Fernanda Limão
AMOR CONJUGADO
Juliana Berlim
FELINA
Chris Hermann
Déh Zabelê
BURACO
Michaela v. Schmaedel
MAPA-MUNDI
Daia Moura
COLETIVA BARRÓSAS
EU QUERIA ESCREVER SOBRE
A GUERRA INTERNA
Lais Eutália
37
41
43
45
47
50
51
53
24
62
64
Lúcia Viana 66
Bruna Sonast 67
TRANSFOBIA RECREATIVA:
A CONSTRUÇÃO DO LUGAR DAS
TRAVESTIS NO IMAGINÁRIO DA
SOCIEDADE BRASILEIRA
ATRAVÉS DO HUMOR 70
Elisha Silva de Jesus
SAUDADE 81
Yonne Miller
ENSAIO FOTOGRÁFICO
DESLOCAMENTOS
IMAGINÁRIOS, 2020
MONTEVIDÉU, URUGUAI 85
Camila Fontenele
ENSAIO FOTOGRÁFICO
MORRO E NÃO POSSO VELAR
MEU CORPO 98
Julia Pupim
PARTICIPARAM DESTA
EDIÇÃO 110
APRESENTARAU
Há um ano nascia Laudelinas, uma publicação desenvolvida para o fomento
das vozes femininas na sua multiplicidade de atuação artística e social. Nesta
edição contemplamos mais uma vez a produção de artigos, poemas, resenhas,
contos, crônicas, ilustrações e ensaios fotográficos elaborados por mulheres cis e
trans de todas as regiões do Brasil.
Há um ano enfrentamos bem mais que a letalidade de um vírus e as
consequências econômicas do isolamento social: somos uma nação destituída do
bom senso e de empatia, governada por milicianos, abandonada pela omissão e
cumplicidade partidária de algumas instituições. Assistimos ataques às minorias,
a exclusão e o esfacelamento de políticas sociais e ambientais. Apesar da atitude
negacionista de muitos, sobrevivemos ao desempenho vil de um governo genocida
que regozija diante do caos. Se a democracia se evapora em convicções narcisistas
e pentecostais, nós seguimos aos trancos e barrancos, defendendo nossa existência
e as inúmeras tentativas de silenciamento e exclusão:
Sim, eu trago o fogo,
o outro,
não aquele que te apraz.
Ele queima sim,
é chama voraz
que derrete o bivo de teu pincel
incendiando até ás cinzas
O desejo-desenho que fazes de mim.
Sim, eu trago o fogo,
o outro,
aquele que me faz,
e que molda a dura pena
de minha escrita.
é este o fogo,
o meu, o que me arde
e cunha a minha face
na letra desenho
do auto-retrato meu.
Este é o nosso território, nosso corpo, a caixa de memórias, o encontro da
palavra e da imagem na construção de identidades políticas e de resistência. Em
tempos de “achismos”, intolerância, terra plana e pandemia, viver exige coragem e
afeto. Amar é revolucionário e a criação artística um ato necessário para vislumbrar
a esperança.
Avante, queridas!
Recife, 08 de março de 2021
Taciana Oliveira
! Do fogo que em mim arde, Conceição Evaristo
“Talvez, o caminho seja entrar e sair de casulos
para pousar silenciosamente de asas abertas ”*
? Lisiane Forte em Liames (Premius Editora, 2018)
RESÍDUOS
Assionara Souza
Minha mãe morreu aos vinte e oito anos acometida de uma mudez aguda. Um
dos piores silêncios que já baixou sobre a minha família. Desses em que a palavra
“fica presa dentro e se multiplica agilmente. Assim como um pensamento descritivo
minucioso. Eu via isso quando ela penteava o cabelo, aquele olho vítreo pro
espelho, era a doença. Eu. Meu olho via o olho dela. É um sinal que a doença dá.
Principalmente nesses momentos de início. É uma doencinha muito danada, essa.
Afeta muito as mulheres da minha família. E não é loucura. Louca, mesmo, teve
uma minha tia avó chamada Joana. Mas Joana falava muito. Os homens diziam
que era ela a desvairada. Aceitou bem o diagnóstico. Tomou veneno e, antes de
morrer, urinou-se na sala grande da casa vomitando impropérios. O demônio da
palavra a habitava. Minha mãe começou com os silêncios dela, eu tinha oito anos.
Os fios de cabelo que ficavam no pente, tristeza infinita em cada gesto. Mínimos.
Ínfimos. Olhava. As mãos de dedos longos juntando cada sobra de existência. Os
fios de cabelo quando se morre ainda permanecem. A prova inorgânica. Minha mãe
tinha o cabelo longo e os olhos tristes e distantes. Era já a doença. Olho pensante.
Um dia ela me deu um caderno com capa de flores. Ali, decidi. O que a doença
deixava escapar, eu juntava. Teve uma manhã, me arrumando pra escola, ela
disse: “estudo é uma coisa muito importante pra pessoa”. Eu sorri transbordante
da figurinha para a coleção. Escrevi. Letras minhas. O remédio bom da palavra
saindo dela. Cura. Minha mãe não falava nada que não significasse. Meu pai era
diferente. “Cuidado com o carro”; “Olhe de um lado e outro”. Meu pai sempre foi
um homem matemático; pensava muito em ficar rico. Má temática. Esquecia-se dos
outros nessa ideia infame. E mesmo porque matemática desse modo cru, mulher
desfaz. Minha vó, que também quando decidiu silenciar enganou todo mundo,
matou-se no devagar do secreto, entendia muito bem de contar luas e adivinhar
ocultos mistérios. Dela anotei: “a língua é o chicote do corpo”. Talvez pensasse
em tia Joana, a desvairada. Porque mulher gosta muito da palavra. E quando falta,
a doença chega. Sorrateira. Sedutora. Eu sei que há muitas maneiras de se pegar
essa doença. Ainda mais que as mulheres da minha família têm muita facilidade
para o silêncio. É um descuido, e pronto! Começam a parar olho demais numa
coisa só, boca cerrada, minimalismos. A última filha que a minha mãe teve já
veio com a doença de nascença. A primeira palavra que falou foi “não”. Minha
avó chamou minha mãe ao lado. Só se olharam. Porque também, por mais que se
tenha já essa coisa latente, esse silêncio aguardante, às vezes é outra palavra que
um diz pra aquela pessoa e já finca raiz a mudez absurda. A palavra que não diz.
Não adiantava nada meu pai falar. Trazer as coisas da rua, do mundo, grugulejar
notícias. O silêncio da doença não aceita forma alguma palavra sem peso. Eu
sei. Pois aquele dia mesmo. Eu ali, tanta espera o coração. Ouvi a voz. Aguardei.
Atardescia sinfonicamente. Não era? Lembras? Eu e tu. Tantas outras vezes. Me
ouves, agora? Pois aquela tarde tão grande e pronta pra sustentar a exata palavra.
Por que não a disseste? É impossível às mulheres da minha família suportar a falta
da palavra. Veio com uma força estúpida: o sintoma. Espalhou-se liquidamente o
silêncio rascante dentro de mim. Foi por esse tempo, meus olhos desistiram de ti;
meus braços desistiram de ti. Meu corpo todo adoeceu da ausência de teu gesto.
Talvez aqui dentro há muito tempo venha eu tentando entender o início desse meu
esquecimento de vontade. São de uma inutilidade tremenda as novidades que me
trazes do mundo. A estúpida palavra pronunciada fisicamente. As mulheres de
minha família sofrem do mal da palavra. Não há repouso em tua alma às coisas que
eu digo. Tua palavra não me atinge. Minha mãe morreu aos vinte e oito anos de
idade acometida de um silêncio absurdo. Somos, tu e eu, inimigos muito íntimos.
Meu olho no espelho vê.
Assionara Souza. Escritora, nascida em Caicó/RN, em 14 de outubro de 1969. Formada em
Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, foi pesquisadora da obra de Osman
Lins (1924-1978). Autora dos volumes de contos Cecília não é um cachimbo (2005), Amanhã.
Com sorvete! (2010), Os hábitos e os monges (2011), Na rua: a caminho do circo (2014) —
contemplado com a Bolsa Petrobras, 2014; e Alquimista na chuva (poesia, 2017). Sua obra
tem sido publicada no México pela editora Calygramma. Participou do coletivo Escritoras
Suicidas. Idealizou e coordenou o projeto Translações: literatura em trânsito [antologia de
autores paranaenses: www.literaturaemtransito.com]. Estreou na dramaturgia escrevendo a
peça Das mulheres de antes (2016), para a Inominável Companhia de Teatro. Morreu em 21
de maio de 2018, em Curitiba/PR.
A
LUTA DESSAS
MEET ERES NEGRAS QUE
Ed ME IM AIM
Thara Wells Corrêa
Era uma vez...
No início dos anos 60, uma família
de mulheres negras em busca de novas
oportunidades, desembarcou na cidade de
Sorocaba.
Srº L, a matriarca, era uma mulher negra
de origem humilde nascida em 1911, filha de
pais escravos. Orgulhava-se de ser umbandista
e benzedeira, além de profunda conhecedora
do poder de cura das ervas. Trazia sempre
consigo um pano branquíssimo na sacola, o
qual tinha a função de manter imaculadas
as suas ervas e seu terço (de um metro de
comprimento), que ela mesma havia plantado,
colhido as contas e furado cuidadosamente
uma a uma. Das folhas enrolava seu cigarro
de palha, e cada vez que soltava à fumaça,
refletia sobre a vida e suas armadilhas.
Sr” L. havia ficado viúva. Seu marido,
Sr. S, era um homem negro de pele clara e
de olhos verdes, parecia um ser encantado
de tão alto e magro. Quando abria o sorriso,
branco como as teclas de um piano, amolecia
qualquer coração, inclusive o dela. Era
mulherengo e muito encantador. Benzedeiro
famoso e profundo conhecedor dos feitiços
mais secretos, dos quais às vezes usava para
despistar os maridos traídos e enfurecidos. Sr”
L. contava que ele virava um toco de árvore
no meio do mato quando queria fugir das
surras, depois se gabava do feito rindo muito
até se engasgar. Trabalhava como cortador de
eucalipto, e num dia, numa peça do destino, um
pé de eucalipto caiu em cima da sua barriga.
Agonizou por horas, sozinho no meio do
mato, até ser encontrado pelo compadre João
segurando as suas tripas. Sr” L., agora viúva,
sozinha e com cinco filhas ainda pequenas,
viu que era hora de recomeçar. Sabia que
estava vulnerável e temia pelas suas meninas.
Contava que criou 18 filhos. Quando se casou
como Sr.S., ele era viúvo e pai de onze filhos
pequenos. Da união com ele, tiveram mais
sete. Com exceção das cinco meninas, os
restantes já estavam todos criados, cada um
seguindo seu rumo na vida, dizia.
O recomeço não foi fácil. Vendeu tudo
o que tinha de mais valioso onde morava.
Por aqui, trabalhou incansavelmente como
lavadeira e engomadeira até conseguir comprar
um terreninho. Continuava religiosamente de
luto. Sr. S. ainda era presente na sua vida e
no seu coração. Era devota de Nossa Senhora
Aparecida. Fregiientava todas as igrejas que
descobria. Rezava o terço todos os dias às
seis horas da tarde e se levantava assim que o
galo cantava para tomar seu banho de bacia,
no quintal, ao nascer do sol. Como uma
entidade anciã, energizava-se, contemplando
em oração, o milagre de um novo dia.
O Tempo passou rápido demais. As
meninas tímidas e arriscas, tornaram-se
lindas mulheres. Cada uma seguiu seu rumo.
Srº L, controladora que só, temia que elas se
“perdessem” na vida. Só sai de casa casada
e de papel passado, dizia em tom áspero e
com a testa franzida. A filha do meio era
a mais obediente. Dona de olhos negros e
brilhantes como uma jabuticaba madura,
queria ser cozinheira famosa. Tinha dom de
transformar poucos ingredientes em pratos
sofisticadíssimos e saborosos. Só ela tinha
a permissão para usar as panelas de ferro da
mãe. Frequentava assiduamente o terreiro de
umbanda da família. Era um doce de pessoa,
diziam todos que a conheciam. Tímida,
astuta e inteligente. Adorava novelas e era
fã do Roberto Carlos. Vivia cantarolando as
músicas dele por aí. Era feliz demais. Assim
como nas novelas que acompanhava todos
os dias, sonhava com seu príncipe encantado
que, com um beijo apaixonado, lhe pedisse em
casamento ajoelhado e lhe oferecendo flores.
Sim! Sim! Eu aceito! Ensaiava. Às vezes, se
via sorrindo sozinha dentro do ônibus na volta
pra casa, depois de um dia pesado de trabalho.
Trabalhava desde pequena como doméstica
na casa de uma família rica da cidade. Era
tida como da família, obedecia à patroa sem
questionar. Do patrão, um homem fino e
educado, tinha vergonha até da sombra. Das
filhas, era como irmã mais velha. Embalava
suas bonecas quando elas estavam ausentes e
“até” ganhava as roupas que não lhes serviam
mais. Mesmo astuta e inteligente, não tinha
a malícia das armadilhas da sociedade em
que vivia.
Um dia, seu sorriso cruzou outro sorriso,
assim sem querer, como nas novelas. Ele,
homem branco, rico, egocêntrico, estudante
de advocacia (na faculdade mais conceituada
da cidade), queria ser delegado. Quantas
coisas em comum. Sorriam e selavam com
beijo. Os amigos dele riam e faziam piada.
As irmãs e as amigas dela, as confidentes. As
pedras do asfalto testemunhas dos passeios de
mãos dadas, das confidências, dos desabafos,
dos sonhos, do amor. Tudo seguia seu rumo
como sonhado e planejado. Ele jurava que
assim que se formasse e passasse no concurso
para delegado, enfrentaria sua família de
portugueses abastados e eles se casariam.
Selava sua promessa com um beijo apaixonado.
Um dia, como prometido, ele foi conhecer
o centro de Umbanda que ela tanto comentava.
Era dia de “gíria de Baianos e Boiadeiros”.
Ele ficou maravilhado com o que viu. Foi até
tomar um passe com o baiano das Pedras,
chefe do terreiro. O baiano das Pedras era
a entidade que todas as pessoas, médiuns
ou não, amavam. Tinha o dom da profecia.
O que ele falava podia escrever porque era
“batata”. Quando ela foi, percebeu que a
mesma entidade, a qual ela conhecia desde
menina segurava no pulso dela com o dedo
indicador e com o chapéu cobrindo o rosto,
soltava a fumaça do seu charuto, calado
num silêncio de matar. Tomou coragem e o
interrompeu:
“ Aconteceu alguma coisa? O que o
senhor ta vendo? Ai meu Deus!” Exclamou
e riu de nervoso.
Numa retomada, ele ainda segurando a
pulsação dela de cabeça baixa, disse:
“ Você ainda não sabe, mas seu bacuri
(significado de filho na linguagem da
Umbanda), já está com você. Ele trará uma
mediunidade de outras vidas e vai mudar
muito a sua e tudo o que tocar. Será seu fardo
ou seu alívio. A decisão será só sua”. Ela
congelou da cabeça aos pés. A entidade então
se calou, prosseguiu com a finalização dos
rituais de passe e se despediu. Eles Ficaram
até o final da sessão e depois foram embora.
As palavras da entidade calaram tão
fundo na sua alma que não conseguia pensar
em mais nada. Ficou como se não estivesse
mais ali. Tinha a certeza de que seu corpo
não apresentava sinais de nada diferente,
então seguiu com sua vida, seu namoro e
seus sonhos. Tudo era sol na sua vida.
Após três meses, a profecia se cumpriu.
Desesperou-se. Confidenciou a sua irmã mais
velha, que alertou sobre a ira da Srº L. “Meu
Deus, ela vai me matar!” Dizia aos prantos.
Encorajada pelas suas confidentes, decidiu
contar pra ele. Tinha como certo que juntos
achariam a melhor maneira de enfrentar
essa “dádiva de Deus”. Sabia que ele ficaria
feliz. Acreditava piamente na integridade do
seu namorado. Tudo vai dar certo, pensava
cruzando os dedos.
Quando enfim se encontraram, o discurso
já repetidamente ensaiado estava na ponta da
língua. Suas mãos eram com barras de gelo e
seus olhos de jabuticaba, agora eram banhados
de orvalho de medo e incertezas. Ele percebera
a tensão no ar, e insistente perguntou o que
estava acontecendo. Ela, assim como nas
cenas de novelas, disse: “Agora somos três,
olhando pra baixo e colocando as mãos na
barriga”. Silêncio...
Num impulso para traz, ele solta um
grito: “Tá louca né?! Olha o que você está
fazendo comigo”, disse.
Ela chorava demais com a reação dele.
Esperava que assim como nos folhetins,
ele acima de tudo, ficasse com ela. Era seu
primeiro e único amor.
Ele ainda de costas pra ela, com as mãos
na cabeça segurando os lisos e sedosos cabelos
negros, pensava: Isso vai acabar com a minha
vida!
Num rompante ele se vira, segura nas
mãos tremulas dela e diz: “Vamos dar um
jeito nisso. Conheço casais de amigos que já
passaram por isso e resolveram. Arrumo o
dinheiro para você resolver esse problema e
voltamos ao que era antes”.
Num rompante, como que por instinto
e mesmo sem entender ao certo o que ele
proporá, levanta-se, e com toda a força que
tinha, no alto dos seus Imetro 57centímetros
de altura, desfere uma tapa que estrala e diz:
“Nunca mais na minha vida quero olhar na
sua cara! Nojento”, diz. Ao sair, se vira e
promete: “Enquanto eu viver, você nunca
vai por os olhos nessa criança. Siga com sua
carreira que eu vou seguir minha vida. Deus e
meus orixás nunca vão me desamparar. Tenho
fé”. Seguiu quase correndo.
Como era de se imaginar, Sr” L, caiu
como uma forte tempestade na sua vida
expulsando-a de casa e jogando todas as suas
coisas na rua. Agora, ela era a vergonha da
família. Era a mãe solteira do bairro. Ela
chorava de soluçar. Pedia perdão à mãe, mas
em vão.
No auge dos seus vinte e dois anos,
sabia que tinha que continuar. Pensou por
um instante em dar um jeito como seu amor,
agora ex-amor prometera, mas como um sopro
no ouvido, lembrou-se da profecia do Baiano
das Pedras e se arrependeu imediatamente.
Procurou abrigo no emprego, e a patroa
gentilmente a repreendeu. Deu um sermão
daqueles de horas, mas no final, aceitou que
ela morasse no “porãozinho”, na lavanderia
no meio das roupas sujas, afinal ela era como
“uma filha” pra eles.
Srº L, nunca mais tocou no nome dela e
ordenou para que todos ali fizessem o mesmo,
sendo prontamente obedecida.
Seguiram-se os meses... Ela trabalhava
de segunda a segunda, quase vinte e quatro
horas por dia. Não reclamava de dor, de nada.
Dentro do senso comum e numa época onde
não existiam exames de ultrassonografia
obstétrica, as pessoas adivinhavam o sexo do
bebê pelo formato da barriga da mãe. Diziam
com todas as letras, é menina.
Chegou à esperada hora quando estava
lavando roupas no tanque. Deu um grito de
dor e foi um corre-corre danado. Para surpresa
de todos e cumprindo a profecia, os médicos
disseram: É um menino!
A patroa, fina e elegante, porém já na
terceira idade, tinha três filhas moças. Seu
sonho e do marido sempre foi ter um menino
e numa conversa intima com a sua “filha
adotiva”, interrompe o momento entre mãe
e filho e arrisca: “Dá ele pra mim? Registro
e prometo que o criarei como um rei e você
poderá seguir com seu sonho de ser cozinheira
famosa....poderá casar...ter outros filhos”.
Pestanejou por um instante, mas olhando para
a faminta criança, disse não.
“Na alma tenho impresso como tatuagem
o seu cheiro de baunilha e a alegria do
momento quando meus olhos conheceram
os teus”.
Quando recebeu alta médica, voltou ao
“pordozinho” e em poucos dias já estava de
volta ao trabalho. A criança era disputada por
todos os colos. Era a alegria da família.
Sr” L, sete meses depois que soube da
notícia do nascimento do neto pela filha mais
velha, se muniu de coragem, vencendo seu
orgulho e todos os seus preconceitos, decidiu
visitar a filha no emprego. Arrumou-se toda.
Tirou o pote de pó-de-arroz da gaveta e se
maquiou. Trançou os cabelos afros tipo 3c
já brancos, finalizando sua produção com a
peruca curta e lisa que ficava exibida em uma
cabeça de isopor em cima da penteadeira.
Afinal, era seu primeiro neto, pensava ansiosa.
No encontro emocionante pediu perdão à
filha e timidamente, chorou. Quando enfim
carregou o neto de pele claríssima no colo,
se olharam e se reconheceram. A criança
era muito branca, para o espanto da avó,
mas quando esta abriu o sorriso banguelo,
a matriarca se rendeu aos seus encantos e
se derreteu feito margarina. Chorou muito
de felicidade e de arrependimento por suas
atitudes. Ordenou que, imediatamente,
mãe e filho fossem embora com ela, sendo
prontamente obedecida e, contrariando a
patroa, que a esta altura já havia batizado a
criança, assim a família unida seguiu para
casa.
Os anos se seguiram e a criança já
contava com seus três anos de idade e era
quem dominava a todos na família, inclusive
a Sr” L., que de coração gelado, agora era só
felicidade. Mas, como tudo na vida não é só
felicidade, os rumores da mãe solteira ainda
persistiam na vizinhança e incomodavam
muito a Sr? L. que decidiu arrumar um
casamento para a filha solteira e um pai para
dar um sobrenome ao seu neto tão amado e
adorado, e assim o fez.
Num desses encontros que só o destino
é capaz de explicar, a filha caçula da Sr? L.
começou a namorar e o irmão mais velho do
seu namorado estava solteiro.
Sr. B era um homem negro retinto, alto
e bem musculoso. Viúvo recém chegado de
São Paulo, era de uma educação que todos
admiravam. Não tinha vícios, falava baixo e
pausadamente. Perfumado e cheirando a leite
de Rosas, era o partido perfeito para a filha
desgarrada e para o neto que tinha na certidão
de nascimento só o nome da mãe.
Casaram-se com a benção da matriarca
e viveram felizes um ano e meio até a notícia
da primeira gravidez. Sr. B, para o espanto
de todos era alcoólatra em tratamento e sabe
se lá porque, voltou a beber. O primeiro
empurrão veio aos três meses de gestação.
No quinto mês após uma discussão de casal,
o primeiro tapa na cara. Relutou, decidiu
reagir, mas por medo de prejudicar o bebê
que gestava, calou-se. Confidenciou sua atual
situação aos amigos e as irmãs, contrariando
ao que todos os amigos pensavam, não eram
felizes. Os conselhos que recebia eram
diversos. O mais conformador era: “Ruim
com ele, pior sem ele”. Nasceu uma menina.
As agressões continuaram de modo gradual
e quase constantemente. Um ano depois,
outra gravidez. No oitavo mês de gestação,
após uma grave briga por conta do excesso
de uso de álcool e outras drogas, um chute
na barriga. Passou muito mal, quase sofreu
um aborto. Se recuperou e aos nove meses,
um menino saudável nasceu. A criança era a
cópia perfeita do pai, porém, já muito afetado
pelo vício, acusava-a sem provas de ter sido
traído e o filho era de outro homem. Mas, que
outro? Não existia essa possibilidade, nem
de longe. A mente doente do Sr. B, produzia
fatos, lugares, situações e motivos para que
sua vida e a de sua família fosse um inferno
total e diário.
Interminavelmente infeliz, seguia
resistindo sem apoio da sua família e com a
omissão da família do Sr. B., que a culpavam
pela ira dele e por ter provocado cada
violência sofrida, além de acusá-la de já ser
uma mulher “rodada” quando ele se casou.
Seguia se arrastando e tentava não sucumbir
a tanta tristeza e decepção. Ancorava-se nos
filhos, aconselhava-se no terreiro que sempre
frequentou, ouvindo atentamente a todas as
orientações dos Orixás de que tanto amava e
confiava.
Já contando com três filhos, ficou grávida
do caçula. A esta altura já estava morando
bem longe de todos os amigos e parentes, por
estratégia do marido violento e abusador para
que ela não fosse influenciada a largá-lo. As
violências seguiam cada vez mais graves. Era
ameaçada de morte, caso decidisse se separar.
Sr. B, neste momento já assumira seu ódio
pelo primogênito dela que ainda conservava
sua pele clara e no meio da família de negros
retintos, era a prova viva de que tinha sido
abandonada pelo homem que se entregara
por amor. Apanhou calada muitas vezes por
isso também. Esta criança era eu
Eu já contava com meus sete anos, já
estava na escola, alfabetizada e já havia
alfabetizado a Sr L, que a esta altura contava
com setenta e dois anos de idade. Minha
mãe orgulhava-se de ter me ensinado a ler,
escrever e ver as horas nos relógios analógicos
aos cinco anos de idade. Lembro-me do dia
em que decidi defendê-la.
Tudo começou porque eu era como um
papagaio dos porquês. Estava lendo o jornal
em voz alta, e quando ele chegou bêbado,
se implicou com aquilo e como um animal
desgovernado, partiu pra cima de mim.
Lembro-me como se fosse hoje quando ela
entrou na frente dele como uma leoa para me
defender. Foi a primeira vez que a vi fora de
si de um jeito inesquecível. Mas a força física
dele era muito, mas muito superior e ela levou
a pior como sempre. Quando a vi no chão
tentei defendê-la, mas vomitei muito e perdi
os sentidos por um estante. A partir deste dia,
nunca mais o vi da mesma forma, e aos nove
anos, denunciando toda a indiferença dele
comigo para uma tia, ela me revelou que ele
não era meu pai. Mas quem era então?! Até
esse momento, eu pensava que ele era meu
pai.
Minha mãe agora trabalhava como
doméstica o dia todo. Decidiu trabalhar fora
quando nos viu passando fome. Uma vez,
quando nós estávamos chorando de fome ela,
num ato de tamanho desespero deu as sobras
do pouco que tinha aos filhos mais novos e
a mim se dirigiu com o olhar marejado de
lágrimas e disse: “Vamos cantar que a fome
vai passar”. No auge da minha maturidade
infantil, entendi o recado e cantamos a música
tema da novela “Selva de Pedras” que ela
mais amava e sempre cantarolava: Rock and
Roll Lullaby de B.J. Thomas. Cantei com ela
até adormecermos.
Seu marido já consumido pelo vício,
além de violento, gastava todo seu salário
em bebidas. Sumia às vezes por quatro,
cinco dias e quando aparecia, bêbado ainda
e sem um tostão. A está altura os jornais já
ensaiavam timidamente denunciar notícias
sobre a violência doméstica. Na Televisão os
programas femininos como a “TV Mulher”
pregavam o empoderamento feminino e,
fortalecida nisso, decidiu procurar ajuda.
Cansada de passar noites a fio na
delegacia, cansada de ser “humilhada” pelo
polícia machista quando decidia fazer o
boletim de ocorrência e depois, cansada de
apanhar quando chegava em casa e entregava
a intimação nas mãos do agressor, decidiu
buscar outros caminhos. Foi orientada a ir à
procuradoria geral do estado solicitar auxilio
de um advogado publico e assim, conseguir
a Separação de corpos, e mais a diante, a
separação total. Queria recomeçar. Ser feliz
novamente.
A nomeação veio, era uma advogada. No
dia e hora marcada, compareceu ao escritório
com os quatro filhos. Ao chegar, começou
a relatar toda a situação, e em mais uma
dessas peças que só o destino sabe pregar,
quando olha na mesa ao lado, fica muda e
começa a soar frio. A advogada apresenta
seu marido e sócio e ela ainda tremendo,
20
segurando-se para não desmaiar, o reconhece
de pronto. Era ele, seu amor e decepção, pai
do seu primogênito e culpado de todo o seu
sofrimento. Ele, casado e bem sucedido, agora
exercendo a advocacia, trabalhava também
como delegado. Ele conseguiu, disse a si
mesma. (Quando se recompôs, se levantou
com a desculpa de que estava passando mal
em relatar toda a violência sofrida e que outro
dia voltaria. Ele, na hora entendeu quem era
ela, reconheceu seu filho e por um instante
pensou em ir atrás, porém, confortável na sua
vida de homem branco, decidiu não arriscar
perder seus privilégios.
Alguns anos se passaram e ela nesta
altura já estava separada judicialmente do seu
agressor, mas seguiam morando debaixo do
mesmo teto por falta de condições financeiras
para consumar a separação de fato. Sr. B,
agora mais velho e com os filhos já criados,
ainda bebia muito e continuava violento e
agressivo.
Lembro-me de quando ela começou a
desistir de viver. Seus olhos negros como
jabuticabas maduras já não refletiam mais
o mesmo brilho e ela já se encontrava bem
obesa e debilitada devido a tanta violência.
Desenvolvera muitas comorbidades. Seu
corpo mal conseguia caminhar.
A tristeza como um fogo avassalador, já
havia tomado sua alma. Sr L e suas três irmãs
já haviam falecido. Estava sozinha no mundo,
lamentava. Só tinha sua irmã mais velha e seus
quatros filhos, dos quais se orgulhava tanto, e
arrisco a dizer que ainda se nutria, entre um
suspiro e outro, das lembranças boas do seu
primeiro e único amor. O primogênito nunca
conheceu o pai e a pedido dela, também nunca
o procurou. Dizia que eles nunca deveriam se
encontrar, pois temia o enfrentamento. Talvez,
sua intuição mediúnica sempre esteve certa.
Às vezes, como num sopro de respiro,
submergia da profunda depressão e sorria
de algo muito engraçado que ouvia, outras
fingia dormir o dia todo para não acordar
para a sua triste realidade. Não cozinhava
mais e se tentasse, não consiga acertar mais
o ponto de nada. Com o passar dos anos,
assim como uma flor sem água e sem sol, foi
murchando. Não tinha esperança de mudar seu
destino e violentada pela sociedade, machista
e patriarcal; ignorada pela falta de políticas
públicas de acolhimento e enfrentamento
efetivo a violência doméstica; anulada por
todo o racismo ainda presente na nossa atual
sociedade; ela nos deixou há muitos anos
atrás, em uma “manhã de setembro”.
Todo mundo já ouviu falar ou já conheceu
alguma menina/ mulher que foi abandonada e
forçada a criar um filho sozinha. A sociedade
machista legitima tal atitude covarde,
absolvendo o homem da sua responsabilidade,
além de excluir socialmente essa “heroína”.
Assim como toda mulher negra e pobre,
esta história faz parte da estatística de muitas
outras que ainda nos dias atuais, são as que
mais sofrem violência doméstica no Brasil.
Elas são as maiores vítimas de homicídio e
feminicídio. Sendo raça e o gênero fatores
determinante para a legitimação, omissão e
justificativa dessas violências.
A violência contra mulher é, portanto,
estrutural no Brasil, e tão enraizada que
se reproduz de forma automática, natural.
Bem debaixo dos nossos olhos, atingindo a
todos do núcleo familiar e causando traumas
irreparáveis, assim como os que relatei acima.
Em tempo, não posso deixar de citar
que o novo coronavírus (Covid-19) atingiu
milhões de pessoas no mundo, e com ele veio
à necessidade de isolamento, contribuindo
para o crescimento e aumento da violência
doméstica, sofrida por mulheres e crianças
que passaram a conviver dia e noite com seus
agressores.
Por fim, mulher denuncie a violência
doméstica. Procure ajuda, não escute conselhos
de submissão, nem tão pouco justifique os atos
do seu agressor (a) e jamais se anule ou se
culpe pelas atitudes agressivas de quem quer
que você tenha escolhido como companheiro
(a).
Esse relato é sobre as mulheres negras
mais incríveis que conheci, minhas tias e
minha avó, Srº L e a dona dos olhos de
jabuticaba mais lindos que já vi, minha mãe,
dona Irene. Em memória e no coração.
Todo fim, é um recomeço. Acredite!
Viva o Dia da Mulher!
Viva a liberdade de ser, pensar, agir e
viver como bem entender!
Lugar de Mulher é aonde ela quiser.
Thara Wells Corrêa. Mulher transgênero.
Trans ativista, militante pelos direitos
humanos de pessoas trans. Graduanda em
Serviço Social. Conselheira no Conselho
MUnicipal dos Direitos da Mulher de
Sorocaba. Promotora Legal Popular- PLP
21
23
[AS AUSÊNCIAS ECOAM
EM MEUS OLHOS!
Carmelita Zuzart
tenho sustentado
as vistas, no olho
e há, sempre
um bafo tépido
toque palpitante
sussurro,
costurado no vento
nas rachaduras que habitam
os intervalos
e
céus,
tá tudo tão vivo
beligerantemente quieto
há
ausências tão mornas
noites tão claras
um pulso ecoante
aportando as paredes
solidões escoantes
[habitamos]
certa vez,
um olhar varreu a terra
na beira do mar,
engoliu o sol num mergulho
e as pedras.. rolaram as linhas
subindo a cortina-breu
selando
a pálpebra do dia
úmido, surrado
o sol fez-se frio no fundo
e as bolhas subiram...
riscando a gênese
na pele d'água
quando [por fim] regressou
entre os astros
pálido, envergonhado
então elas vieram
dos confins do firmamento
du coin le plus éloigné
estrelar os varais
sustentar o próximo pulo
dança vem sendo verbo
24
[corriqueiro]
entre caiporas e capins
durante as sombras da lua
até...
em queda, desbotar
a última aquarela
arar-se o primeiro café
repare,
o céu alveja
[sempre]
e há
[sempre]
algo bonito, por lá
então choramos
deus,
como não chorar?
p4
Carmelita Zuzart quando tinha 10 anos,
mamãe me comprou um caderninho. En-
tão eu me sentava no jardim e, por horas,
condensava-me. Meses depois, ganhei um
livro ilustrado da Cecília Meireles. Come-
cei a decalcar os desenhos e transcrever os
poemas em folhas de ofício e os vendia jun-
to aos meus no colégio por um real. Assim
paguei meus lanches por um tempo. Me
chamo Carmelita Zuzart, sou Gravatense
em peito e Recifense por certidão. Gradu-
anda em História, perdi no tempo qualquer
rastro de habilidades empreendedoras. Vez
e outra ainda escrevo. Constantemente sin-
to saudades daquela garota.
POR UMA GRAÇA
ALCANÇADA
Cinthia Kriemler
As mesmas de sempre. As coisas
que acontecem com ela. Mas agora é
diferente. Ela se cansou do sempre.
Cansou de contar e recontar pratos
talheres panelas garrafas bibelôs gotas
de adoçante almofadas cadeiras rolos de
papel higiênico latas de cerveja minutos
portas se abrindo e se fechando com força
tapas socos chutes cortes hematomas
lágrimas gritos semanas meses anos.
Cansou de contar para os filhos
as mesmas histórias sobre deus papai
noel coelhinho da páscoa chapeuzinho
vermelho cinderela gato de botas
princesas príncipes reinos encantados
meninas e meninos felizes — seja lá o
que for que signifique ser feliz.
Cansou de contar para a mãe para as
vizinhas para as amigas para a empregada
para a professora dos filhos para as
médicas (é invariavelmente feito só de
mulheres o seu universo vigiado) uma
versão Mulher-Maravilha de si mesma.
Mas não sente remorso. Quem foi que
disse que as melhores versões não são
as inventadas?
Cansada, confessou ao padre a
verdade. Em versão única e sem revisão.
Ele lhe pediu paciência e serenidade.
Paciência e serenidade. Paciência e
serenidade. Repetição que ela implantou
em eco na cabeça. Pediu também que ela
perdoasse. Tudo. Em troca da absolvição
dos próprios pecados. Que pecados,
padre?, quis perguntar. Não perguntou.
Achou melhor não criar argumento. Ele
insistiu nos infinitivos: relevar, esquecer,
perdoar. E ainda teve a coragem de falar
a ela sobre o amor. Teve essa coragem.
Ela ficou ali, estática, do outro lado
da treliça sebosa do confessionário
abafado, esperando aquele homem
autoproclamado “de Deus” dizer a
palavra justiça. Ou a palavra respeito.
Que nada. O que ele fez foi alinhavar a
confissão com um clichê estúpido. “Até
que a morte os separe, filha, lembre-se
disso”. Acompanhado de uma penitência
branda: um Pai-nosso e três Ave-Marias.
Muito branda.
Ela contou os furinhos da treliça mais
uma vez, antes de se levantar daquele
lugar sufocado. Rezou a penitência
25
26
aos pés da estátua de Nossa Senhora
de Fátima, repetindo mecanicamente as
palavras. Contou as velas do altar as
imagens dos santos os quadrados do piso
os anjos do teto. Depois, foi embora. A
caminho de casa, recomeçou a contagem.
Sinais de trânsito, carros vermelhos,
casas brancas, placas com final cinco.
Cinco. Que número perfeito. Os
cinco sentidos. As cinco pontas de um
pentagrama. O número-amuleto dos
romanos para proteger dos espíritos
malignos — romanos espertos.
Cinco dedos segurando o revólver
comprado há cinco meses por cinco mil
reais. Cinco tiros à queima-roupa no
homem roncando sobre a cama. Cinco
pipocos (ela sempre quis dizer pipocos).
Contados e recontados. Contados e
recontados. Contados e recontados. Um
novo eco implantado na cabeça.
Só nos Pai-nossos e nas Ave-Marias
é que ela multiplicou o número perfeito
por dez. 5 x 10 = 50. Rezou um rosário
inteiro. Porque penitência não pode
ser branda. Nem pode ser brando o
agradecimento por uma graça alcançada.
Cinthia Kriemler é carioca e mora
em Brasília. Autora, pela Editora
Patuá, de O sêmen do rinoceronte
branco (Contos, 2020); Tudo que morde
pede socorro (Romance, 2019); Exercício
de leitura de mulheres loucas (Poesia,
2018); Todos os abismos convidam para um
mergulho (Romance, 2017) — finalista do
Prêmio São Paulo de Literatura de 2018; Na
escuridão não existe cor-de-rosa (Contos,
2015) — semifinalista do Prêmio Oceanos
2016; Sob os escombros (Contos, 2014);
e Do todo que me cerca (Crônicas, 2012).
Organizou a antologia de contos Novena
para pecar em paz a convite da Editora
Penalux, em 2017. Tem textos e poemas
publicados em diversas antologias e em
revistas literárias.
SUGESTÃO DE LEITURA
RESENHA
PRESOS QUENMIBNS ERUOAMG
NCBRUTAL VIDA DAS IMUERERES
e RA E AO ud COMO O
NAS
PRISÕES BRASILEIRAS
laranda barbosa
Quando pensamos em nossas
referências de leituras a respeito de
prisões, as primeiras que aparecem,
provavelmente e nesta ordem, são:
Estação Carandiru, de Dráuzio Varela,
Diário de um detento: o livro, de Jocenir,
Memórias do Cárcere, de Graciliano
Ramos, Vigiar e punir: nascimento da
prisão, de Foucault. Todas escritas por
homens. Todas sobre homens.
Na contracorrente desse rio que flui
em uma única direção está a jornalista
Nana Queiroz, provocando redemoinhos,
ondas e sumidouros, com a obra “Presos
que menstruam. A brutal vida das
mulheres — tratadas como homens — nas
prisões brasileiras”. O livro, publicado
em 2015, inicia com um prefácio que
já parte para o enfrentamento e para a
reflexão sobre o silenciamento tanto
das bibliotecas quanto das produções
televisivas e cinematográficas sobre as
mulheres nas prisões. A crítica inicial de
Nana Queiroz é extremamente válida e
atual, pois escassas ainda são as obras e
pesquisas que se dedicam a elas e, embora
tenhamos uma vasta gama de séries cuja
trama é desenvolvida em penitenciárias
femininas, as produções apresentam
cenários que estão longe da realidade
e mulheres encarceradas aparecem,
portanto, como meio de entretenimento
e diversão. Logo, o que poderia ser
um suporte para levar o expectador à
reflexão sobre a problemática torna-se
27
28
um instrumento a mais de objetificação
feminina.
As estratégias utilizadas por Nana
Queiroz para compor a obra refletem
bem a invisibilização que o patriarcado
tenta impor sobre a figura da mulher, pois
a jornalista, em diversos presídios, fora
impedida de levar gravadores ou qualquer
equipamento eletrônico de registro.
Entretanto, da mesma maneira que
desenvolvemos artifícios para seguirmos
adiante, a autora conseguiu entrevistar
as detentas e construir o livro a partir
dos depoimentos que foram assimilados
através de fragmentos que se uniram e
formaram o tecido narrativo costurado
pelos fios da memória da autora. Um
tecido cheio de remendos alinhavados
por papéis clandestinos escondidos nos
bolsos. A tessitura ganha mais corpo
quando a autora retoma algumas histórias
no meio do livro ou no final, como uma
perspectiva de recomeço, um modo de
dizer que as narrativas não acabaram ou,
ainda, que a realidade daquelas mulheres
permanece a mesma.
O livro-reportagem traz em seu
título diversos elementos para a reflexão:
o substantivo masculino “presos”
formando o contraponto com o verbo
“menstruam”; o adjetivo “brutal”
associado a “vida”, indicando o longo
tempo no qual as mulheres permanecem
naquele lugar; o aposto posicionado e
destacado entre hífens, chamando a
atenção e exigindo uma pausa um pouco
mais longa; e o complemento que indica
a dimensão da pesquisa: acontece em
nosso país. O aposto diz “— tratadas
como homens —? e no decorrer da leitura
comprovamos a força desse trecho ao
percebemos que, mesmo dentro da
prisão, permanecem a preocupação com
os filhos, com a família, a dupla jornada
e a coragem que ferve nas veias diante
do enfrentamento:
[...] ao contrário dos presos
homens, as mulheres não se escondem
quando a tropa de choque invade o
presídio, mas xingam os policiais,
jogam neles objetos e as mais corajosas
chegam até a se atirar sobre eles.
— Prefiro mil vezes uma cadeia
com 30 mil homens do que uma com
cem mulheres — diz ela [a diretora
de um dos presídios], enfatizando as
palavras para que sejam levadas a
sério. — Elas são muito indisciplinadas,
arrogantes e não têm medo de nada.
Apesar da tropa de choque ser tão
agressiva com elas quanto com eles,
elas não se acovardam. Acho que a
mulher é mais corajosa que o homem
em todos os sentidos, ela enfrenta
qualquer problema, qualquer desafio,
acho que está habituada a fazer isso
fora da cadeia.
NANA
QUEIROZ
Imagem: Divulgação
A capa é um recurso semiótico que
complementa o que o leitor acabou de
decifrar: apoiadas em uma barra de ferro,
duas mãos exibem unhas pintadas com
um esmalte azul opaco, descascando.
As situações-limite, o tratamento
desumano, os crimes confessos, a
mea culpa, a vulnerabilidade social, a
carência afetiva, a burocracia, a lentidão
da justiça, o HIV, a gravidez, o parto,
o puerpério, as renúncias pessoais,
a solidão, os dados, as estatísticas,
a saúde física e mental, os sonhos, a
padronização e a “Institucionalização
das presas” são algumas das inúmeras
a
discussões que Nana Queiroz traz à
ordem do dia para que essas mulheres
deixem de ser ignoradas pela sociedade
e para que muitos estereótipos sejam
rompidos. Nesse sentido, “Presos que
menstruam?” está longe de ser uma obra
panfletária ou apelativa, pois o discurso
vitimista inexiste — haja vista o fato,
inclusive, de que a autora consultou,
após as entrevistas, para evitar pré-
-julgamento ou tendência, o processo
de algumas detentas e comparou com os
depoimentos já recolhidos.
Por outro lado, é impossível evitar
a influência do ambiente na construção
das narrativas apresentadas por Nana
Queiroz em formato de capítulos curtos.
As descrições do cenário incluem os
cinco sentidos que nos são apresentados
através de cheiros, sensações, ruídos
e sinestesias. As palavras da autora
se misturam com as das personagens,
apresentadas ora com pseudônimos ora
com nomes reais (protagonistas de crimes
hediondos e de grande repercussão
nacional). Tal recurso, associado às
variações linguísticas — a fim de marcar
a pluralidade, já que a autora visitou
diversos presídios pelo país — aproxima
“Presos que menstruam” de um livro de
contos cujo protagonismo é de mulheres
em situação de cárcere.
A jornalista usa diversas técnicas
narrativas, entre elas o in media res, a
falsa terceira pessoa do singular e a voz
narrativa híbrida. Esses recursos deixam
29
30
ARtonitp É pido
IvVZEno pib fo DE cio eps RS
Deigés Se para vO Cho ora
Imagem: http://atribunanaweb.com.br/noticia/descubra-como-e-a-vida-das-mulheres-nas-penitenciarias-brasileiras
o leitor na dúvida entre uma ficção
diabolicamente real ou uma realidade
diabolicamente digna de ficção. ' Andando
pelas carnes”, por exemplo, é um capítulo
que nos faz lembrar bastante Muribeca,
de Marcelino Freire, e nos impele a
refletir sobre até que ponto a realidade e
a ficção se misturam e se separam. Onde
a linha tênue entre ficção e realidade
é atravessada?, pois as narrativas são
absurdamente reais e de realidade
absurda. Ademais, Nana Queiroz deixa
explícita as suas referências e influências
literárias, ao apresentar um capítulo em
forma de poema e ao criar títulos como:
* Amor em espaços de cólera” e “A hora
da estrela de Vânia”.
“Presos que menstruam” é um livro
imprescindível para que conheçamos
e compreendamos realidades outras.
Mães, filhas, estudantes, estrangeiras,
brasiguaias, indígenas, ricas, pobres...
todas nós somos passíveis de estar na
mesma situação que aquelas detentas —
devido a uma decisão errada, um passo
mal dado, um instante de fúria, um vacilo
—, habitando uma estrutura pensada
ou construída para/por homens e que,
quando voltada para as mulheres estava
destinada para aquelas consideradas
“desajustadas”.
As inquietações afloram no fim dos
capítulos e nos incomodam após cada
virada de página:
— Eu, por exemplo, estava
grávida. Perdi meu filho faz dez
dias, sangrei feito porco e ninguém
fez nada, não vi um médico. Agora,
tô aqui cheia de febres. Vai ver o
corpinho tá apodrecendo dentro de
mim.
Atualmente as detentas são chamadas
de reeducandas, uma mudança lexical
interessante e até mesmo bonita, mas,
com base no depoimento acima, qual
a possibilidade de reeducação dessa
mulher? Existe ressocialização para
quem não foi socializada?
A leitura nos coloca em meio a
dilemas: qual o conceito de verdade,
justiça, injustiça, direito, inocência,
culpa? As diferenças de gênero saltam
aos olhos quando nos perguntamos:
A visita íntima é um direito, mas é, e
deve ser, respeitada? Independente
das respostas, compreendemos que
“Presos que menstruam” é um livro sem
julgamentos, afinal, aquelas mulheres
já foram moral e socialmente julgadas,
condenadas e, várias, executadas. Obra
imensamente significativa e rica, esse
livro que precisa estar ao alcance de
todos e, tal qual as situações expostas,
não pode ser ignorado.
Nana Queiroz rompe com o
silenciamento dessas mulheres,
retirando-as da invisibilidade. O
estudo e a divulgação dessa obra são
imprescindíveis para que a população
enxergue as presidiárias enquanto seres
humanos e para que mudanças sociais
sejam realmente executadas a fim de
tornar obsoletas as palavras de Foucault,
em Vigiar e Punir, ao afirmar que:
[...] o papel da prisão é ser uma
garantia sobre a pessoa e sobre seu
corpo [neste caso o feminino]. A
prisão assegura que temos alguém,
não o pune; e, mais que claro, não
ressocializa [...] O ciclo está fechado:
da tortura à execução, o corpo [da
mulher] produziu e reproduziu a
verdade do crime.
SI
32
Nana Queiroz é meio paulistana, meio brasiliense, autora de
Você já é feminista: abra este livro e descubra o porquê. É
bacharel em jornalismo pela USP, especialista em Relações
Internacionais pela UnB e em direitos das mulheres
por necessidade vital. Também é criadora do protesto
*NdomereçoSerEstuprada e fundadora da revista AzMina,
referência em jornalismo feminista no Brasil. Em 2017,
liderou a equipe premiada com o Troféu Mulher Imprensa
de Melhor Projeto Jornalístico.
Iaranda Barbosa, formada em Letras Português-Espanhol, pela
- UFPE, possui mestrado e doutorado em Teoria da Literatura
pela mesma instituição. Salomé (Selo Mirada), novela histórica
é sua primeira obra ficcional longa. A autora possui contos
em antologias e revistas de arte, assim como diversos artigos
científicos publicados em periódicos especializados em crítica
| literária.
TRINTA ANOS DEPOIS
Mariana lanelli
A Luna, você se lembra da Luna?
A gata de raça pura, olho azul celeste,
filhote de gatos medalhados em concurso
de beleza, a gatinha perfeita, escolhida
a dedo. Você e a mãe foram buscá-la
uma tarde. Era para ser sua, como numa
boba fábula cor-de-rosa, não tivesse a
bichana se empoleirado no ombro da
mãe, já dentro do carro, se enroscando
nos cabelos dela.
A mãe tentou fazer a ponte, mas
não havia maneira, a gata havia feito a
própria escolha. Foi então que começou
dentro de casa uma tortura surda. A gata
passava na sua frente, você enxotava o
bicho como se fosse um rato, com um
susto.
Luna cresceu debaixo desse pesadelo,
nem dormir tranquilamente ela dormia,
por causa de você ela se arrastava pela
sombra, serpeando, fugindo da sua troça
mórbida, se escondendo dos seus passos,
até que se tornou paranoica, se metia em
gavetas estreitíssimas, vivia dentro do
forro do sofá, só alta madrugada saía para
comer. Mesmo as outras gatas da casa
a ignoravam, incomodadas com aquela
criatura estranha em tudo, de pelos tão
longos e brancos, tão completamente
louca e tão bonita. Era como se apenas
por descuido ela se deixasse encontrar,
já com um tremor constante enxertado
nela. Mais intuíamos sua presença que
outra coisa, e se de repente, por azar, nos
cruzássemos sem querer, o melhor que
podíamos fazer pela gata era fingir que
não a estávamos vendo.
Quando mudamos para outra casa e
você já não morava conosco, Luna não
tinha mais nada daquele belo exemplar
de Sagrado da Birmânia, era um bicho
magro, encardido de viver debaixo de
um deque no quintal, os olhos de um
azul desbotado, uma mancha selvagem
que aparecia e desaparecia pelos cantos,
um fantasma de gato.
Um dia, uma velha bate à nossa porta,
muito educada e sorridente compensando
a economia de palavras, era a vizinha de
mudança para o interior. Descobrimos
aí que Luna tinha uma segunda casa e
a mulher vinha nos perguntar se podia
33
34
levar a gata com ela. A mãe consentiu,
talvez um pouco emocionada, já não me
lembro.
Luna viajou sabe lá para onde, com
sua nova dona, muito possivelmente
ganhou outro nome, talvez tenha até se
curado do pavor antigo e recuperado os
belos olhos. O contentamento dessa gata
quando ela se viu livre, longe de nós.
O gozo de caminhar sem ter de rastejar
pelos cantos, o gozo de deitar ao sol e
dormir sem sobressaltos, tudo de pouco
em pouco, como cabe a um sobrevivente,
até estar reabilitada para a vida de novo.
Uma outra Luna, feliz, gorda, amada.
Gosto de imaginar que isso tenha
sido possível, que o amor tenha realizado
sua parte nessa história, aquela espécie
de amor não planejado, vindo não se
sabe de onde, que pega no corpo como
uma planta pega na terra, surpresa não
só para quem é amado, mas também para
quem ama sem ter esperado por isso.
Veja você onde desembocamos.
Podia ter pinçado outra lembrança, entre
as que vêm sem muito esforço, mas então
agora você não iria se lembrar da Luna,
e o que eu queria, no fim das contas, era
que você se lembrasse dela, que pensasse
na gata feliz em que ela se transformou
depois que se esqueceu de você.
! '
E
Es
Mariana Ianelli nasceu em São Paulo em
1979. É autora de nove livros de poesia,
entre eles, Fazer silêncio (2005), O amor e
depois (2012) e Canções Meninas (2019).
Tem dois livros de crônicas: Breves
anotações sobre um tigre (2013) e Entre
imagens para guardar (2017). Estreou na
literatura infantil em 2018 com o livro
Bichos da noite. Escreve quinzenalmente
aos sábados na revista digital de crônicas
Rubem. É curadora da página Poesia
Brasileira do jornal Rascunho.
OS POROS NOS 0550S
Nara Vidal
Antes de começar a escrevê-la
na minha cabeça e, eventualmente no
papel, ela já me rondava. O espectro
sentido num peso insuportável através
de fotografias, memórias, indizíveis
verdades, Vazio.
Minha vó, uma vez, me contou
assim que quando criança, conversava
com uma preta da fazenda dos pais dela.
A preta tinha nome? Não se lembra. O
que ficou foi só o dia que, presa num
curral por desobediência, esticou as
mãos para fora para segurar a minha
avó. As mãos acorrentadas. A lei Aurea
já tinha sido proclamada. Ainda assim,
a mulher de correntes estava de castigo
no curral e essa história chegou a mim
por quem a testemunhou. Quem sofreu
o caso que contou minha avó não disse
nada. O que sei e o que vejo é o que viu
a vó, do lado de fora do curral. Do lado
de dentro, suja de esterco, mãos presas,
moscas varejeiras cutucando a pele
maltratada, a mulher não nos contou
nada. Será que tinha língua?
Uma vez, na casa dos meus pais,
abri uma caixa e lá encontrei Francisca e
Carolina. Um papel grosso, esverdeado,
caligrafia caprichada dizia que as duas
tinham sido vendidas. Seus dentes e
seus outros ossos eram fortes, eram
novas, eram negras. Foram vendidas
para o Capitão Elói Mendes que em 1888
recebeu o título de Barão de Varginha.
Hoje, ele, não a Francisca ou a Carolina,
é nome de cidade.
Quando eu morava no Rio e fazia
Faculdade de Letras, meu pai, diretor
do ginásio, organizou uma excursão até
o Forte de Copacabana. A oitava série
feita de meninos e meninas de 15 anos
foi em peso. No caminho para o Forte,
o ônibus parou na orla de Copacabana
para que eu desse um abraço no meu
pai, rara ocasião de visita. Um aluno
desceu correndo do ônibus. Ele era
negro, calçava chinelos que destoavam
dos tênis da garotada. Quando ele disse
que engolia o choro porque via o mar
pela primeira vez, os colegas riram e
35
36
o chamaram de jeca. Pensei que eu já
não me lembrava da primeira vez que
tinha visto o mar. Era compromisso
anual em Marataízes ou Guarapari. Um
mineiro que já não se lembra quando
viu o mar pela primeira vez teve lá seus
privilégios, ainda que em prestações e
sacrifícios.
Na escola, meninos e meninas
sem sapatos, traziam nos seus cabelos
crespos e nos seus cadernos porções
amarelas do poeirão da estrada rural
de Guarani percorrida diariamente.
Exaustos, eram mandados para o fundo
da sala onde eram esquecidos por todos
e podiam dormir. Sempre repetiam
de ano porque preguiçosos, diziam os
educadores, dormiam durante a aula.
Na Inglaterra, visitei uma feira de
quinquilharias. Notei um quadro de
uma princesa. Ela usava um turbante
lindo, brincos pesados e dourados,
estava de perfil e olhava para baixo. A
pele era escura. Eu a reconheci: ela era
os meninos do fundo da sala de aula,
O rapaz que virou chacota porque viu
o mar aos quinze anos, a mulher de
correntes nos punhos, a Francisca, a
Carolina. Era o fantasma, essa carga,
esse peso, essa humilhação, um país.
Se chamaria Mariava” e entraria em
um livro que eu escreveria. Sua história
seria uma narrativa de lacunas, de
incômodo nunca satisfeito, com seu
caminho apagado e seus olhos cegos.
Silêncio.
Nara Vidal é mineira de Guarani. É autora
de Sorte (Prêmio Oceanos 2019) e Mapas
para desparecer. Mora na Inglaterra.
* Mariava virou uma das personagens do meu romance Sorte, publicado em 2018 pela
Editora Moinhos e que foi traduzido e publicado na Holanda.
37
3 AA) [a IM Ea
Silvana Guimarães
... e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito.
eclesiastes 1:14
2416
112 quilos de botox, dezessete litros e meio de silicone,
16 dentes na vagina — ácidos hialurônico e retinoico,
hidroxiapatita de cálcio, polimetilmetacrilato, próteses,
transplantes, implantes: perdi a conta —, 439 anos depois
2458
seis títulos de miss universo(s)
linda jovem gostosa desejada
aos 444 anos ninguém me dá
mais do que delirantes 220
2425
38
dou mais do que mudo de roupa
2363
minhas tetas musicais fazem sucesso
no faceback: a qualquer apalpadela alheia
espalham seu som estereofônico por aí
enrubescem e fazem prostrar todas as galáxias
a preferência comum entre os machos:
la cumparsita em ritmo acelerado
2365
cortaram a última árvore da terra
mataram o último voo do pássaro
amordaçaram a última lira
e não há nada de novo sob o sol
o solo sol: acabou-se a mágica
2366
os vínculos telepáticos
destruíram por fim a linguagem
ninguém precisa mais da palavra
menos eu, que invento uma
e sofro dela: so-li-du-me
2040
nostalgia de auroras bem-te-vis arco-íris
as montanhas da minha cidade
pão de queijo arroz com pequi
aquele vestido de veludo grená
sentir a alegria de minha avó canhota quando
tocava bandolim ou recebia uma carta
2038
meu sangue pela beleza eterna
dois faróis amarelos esverdinhando-se
39
40
a febre nos olhos de açude
— é assim que ele goza —
em troca, fui condenada à vida
2037
não reparei nos dentes caninos
nem nas faíscas que seus olhares
jorravam sobre a minha jugular
SÓ nos sussurros roucos [quando
gemer ainda era permitido]
24/1
nunca
nunca mesmo
aceite doces de uma
pessoa estranha
Silvana Guimarães vive nas alturas.
Monja eremita, em 2517 foi esquecida no
mais elevado monastério de Meteora, na
Grécia, onde é assistente de enfermagem.
Especialista em febre. Garimpa tempestades,
fala sozinha, lava gatos, caça palavras. Seu
livro de poesia — O corpo inútil — está
no prelo.
41
ADTO DE NATAL
Adriane Carcia
Ave-Maria cheia de Graça
O Senhor é convosco
Qual matrioskas nasceu Maria
De Maria de Maria de Maria
Das galés
De parteiras
De Marias
Maria solta um berro
De bezerro que bebia
Mais leite do que Maria
Ave! Nasceu!
Na luz anônima de março
Sem estrela
Maria
É de pesado astro
Galinhas, pintinhos
Vaca, boi, pinheiro
Não é dezembro e os reis
Magos, magros
São os tempos
Maria envolta em andrajos
Manta puída, mãe de vento
Vai para o colo de outra
E outra e outra:
Matrioskas
Maria longe do peito
Maria fazendo escala
Maria Belém fugindo
Herodes com seu buraco
Fome, fomes, Maria
Maria, a mãe, onde está?
Nem ouro, incenso ou mirra
Nem mesmo um boi-bumbá
Estrelado somente o dia
A secar Maria, a secar
À noite Maria molha
O colchão e os modos
De olhar
Maria mijona
Maria chorona
42
Maria, incômodo mar
Ave! Um anjo, Maria
Não tarda a vir consolar
(e Maria monta um presépio
bota um menino no altar)
Maria crescendo quer dar à luz
Um homem
Mas no escuro vem
Maria
De Maria de Maria de Maria
De Maria
Das galés.
Adriane Garcia, poeta, nascida e residente
em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para
adulto perder o sono (Prêmio Paraná de
Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná),
O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura,
2014), Só, com peixes (ed. Confraria do
Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col.
Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed.
Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei— a
desmemória dos bois (ed. Conceito Editorial,
2019) e Eva-proto-poeta, ed. Caos & Letras,
2020
Manuella Bezerra de Melo
esperar um anjo com sua trombeta
esperar cuspir as pérolas antes de engolir
os rubis na areia
a areia em cascalhos
os pés sujos de piche
o piche sujo de cobiça
as pérolas cagadas dos porcos
esperar uma noite bonita
um momento sublime
a luz ideal de velas
do lustre
do sorriso do gato
do breu
do silêncio que precede a dor
esperar que cresça o filho
um ano tem 365 dias
um fi lho viverá muitos anos
até que você volte a dormir
uma noite parcial
nunca mais voltará
nunca mais voltará a dormir
esperar pelo verão
três estações inteiras
um terço de um ano
folhas secas animais mortos
pelos de gato nas almofadas
43
adubo aduba tudo
tudo morreu até você
esperar que cresça o cabelo
os fi os do cabelo precisam do sol do verão
não crescem porque são cortados
são cortados porque não crescem
queria-os longos mas os corto
como corto minha língua
minhas asas e meus punhos”
Manuella Bezerra de Melo é recifense, autora de Pés Peque-
nos pra Tanto Corpo (Urutau, 2019) e Pra que roam os cães
nessa hecatombe (Macabéa, 2020), tem mestrado em Teoria da
Literatura e atualmente cursa o Doutoramento em Modernida-
des Comparadas: Literaturas, Artes e Culturas na Universidade
do Minho, em Portugal, onde reside.
* Poema extraído do livro Para que roam os cães nessa hecatombe (Macabea, 2020).
45
Fernanda Limão
É chegada a hora de fazer limpezas
Na casa, na mente, no corpo
No baú de lembranças empoeiradas
Nas novas práticas cotidianas
Nos setores abandonados de afagos
Nos canais abertos
Que sempre estiveram fora do ar
É preciso espanar os enfeites inúteis das estantes
E estender nos varais os lençóis mofados dos afetos
É urgente percorrer as veredas do interior
E conhecer vales profundos
Há que se capinar os campos inférteis
Adubar a terra para que o novo floresça
E oferecer margaridas a quem se perde entre as campinas
É preciso entender de sementes
E cultivar cada uma em seu território
Não se sabe quem disse que existem ervas daninhas
Se os danos não vem das raízes
É necessário agora pousar os pés
em terras férteis
E plantar novas estradas
46
Abrir caminhos na aspereza das pedras
E acomodá-las em outros lugares
Outras estações virão
E as folhas secas do outono ainda estarão lá
E será preciso juntá-las até surgirem
novos espaços para caminhar
Caminharemos muito para desbravar novos tempos
Fernanda Limão é poeta, professora e produtora cultural.
Natural de São Paulo, vive em Garanhuns desde o ano 2000.
Tem poemas publicados em diversas antologias impressas e
digitais desde 2010. Em 2018 lançou seu primeiro livro autoral
Olhos de nuvem, pelo selo cartonero Severina Catadora.
LSMOR CONJUGADO
Juliana Berlim
Rio de Janeiro, 05 de abril de 2020
Meu amor,
Eu não sei se isto é a última carta que irei lhe escrever, mesmo sendo pouco
mais do que a primeira. Escrever cartas é um hábito em desuso, e a velocidade
dos e-mails tornaram as pessoas preguiçosas para a expressão escrita intimista,
preferindo neste caso a troca interpessoal. Eu, de minha parte, sempre achei que
o ato de escrever uma carta de amor não era só ridículo, mas, a repetir o mesmo
bardo, uma atividade inalienável dos caminhos do amor, porque só quem não
escreve cartas de amor é realmente uma pessoa ridícula. Sei que você não gosta
de ler poesia e só se preocupa com música, mas Fernando Pessoa faz bem para a
pele e para a alma de qualquer vivente, ainda que, nos dizeres de António Lobo
Antunes, Pessoa fosse pouco confiável por não fazer sexo. Com ou sem sexo, faça
como a maioria das pessoas sensatas e leia Pessoa. Aproveite e leia Shakespeare
também, mais sensato ainda.
Eu me perdi. É a falta de costume, perdoa, amor. Estou desacostumada a
escrever cartas românticas que não sejam despedidas. Nesta eu não chego a me
despedir de você, mas chego ao ponto a que quero chegar, que é conversar sobre
nosso afastamento. Só mesmo uma carta para me dar coragem de dizer o que
quero dizer faz tempo. É isso um fim? Não sei dizer. Só sei dizer que preciso de
espaço. Espaço espiritual, sem dúvida, mas espaço físico incluído. Preciso do
meu próprio quarto, da minha própria cozinha, do meu próprio banheiro, preciso
conseguir demorar no banho sem me preocupar se você chaga a qualquer momento
para me interromper. Preciso de uma banheira, que você se recusa a comprar para
nossa casa. Preciso escrever sem ouvir as músicas do Dylan ou Hendrix no último
47
48
volume, ou sem seus amigos de banda bagunçando toda a sala, colocando os pés
sobre minhas almofadas e pondo lata de cerveja sobre minha cômoda. Preciso
cozinhar a comida sem ninguém controlando o uso do óleo ou reclamando de eu
estar preparando uma comida balanceada, até porque você é o único namorado da
face da Terra que reclama de eu cozinhar comida saudável, sondei minhas amigas
e os namorados delas reclamam que elas não cozinham! Na minha opinião, se nos
afastarmos, até nosso sexo, que continua incrível mesmo depois de intensos três
anos, vai se beneficiar.
Visitei uns apartamentos que coubessem no meu orçamento e, apesar de
morarmos em um bairro meio caro (escolha sua, para ficar perto da sua mãe),
adivinha só, achei um conjugado todo mobiliado pela metade do preço do nosso
aluguel. Onde, você vai me perguntar? No nosso prédio! Vagou há alguns dias,
a antiga inquilina ganhou uma bolsa de estudos do governo francês e precisa se
mudar com urgência. Como ela está precisando fazer tudo com muita pressa,
falou que segura o apartamento até depois de amanhã e nem me pediu caução,
por sermos vizinhas e ela nos conhecer. Lembra dela, a moça branca do cabelo
azul, que a gente dizia ser igual à menina daquele filme que vimos, por acaso um
filme francês? Como eu ri de todas essas coincidências, até lésbica ela é, está se
mudando pra Europa com a namorada coroa. Ah, você não deve estar rindo. Se
estivéssemos juntos e eu te contasse esta história, você não riria. Você só riria se
fosse uma piada amarga de uma letra do Dylan. Você só ri de coisas que não são
facilmente engraçadas.
Então, meu amor, esta é minha carta de despedida. Do nosso relacionamento?
Não, da nossa convivência mútua. Se você vai conseguir pagar o aluguel e o
condomínio sozinho? Agora é com você e com algum dos seus amigos, que você
dizia serem mais fáceis de conviver do que comigo. Se eles vão querer dividir
a conta com você? Esta é a pergunta que você deve se fazer agora, porque vou
fechar o negócio com a doidinha do conjugado amanhã mesmo. Nos próximos dias,
vou tirar minhas coisas da nossa casa, melhor, da nossa ex-casa. É nosso fim? Só
espero que seja um tempo de descanso, para que possamos voltar mais fortes do
que nunca. Será a última coisa que vou te escrever? Sabe, eu não (..)
Da sempre sua...
Juliana Berlim é professora de Língua Portuguesa e Literatura do Colégio Pedro II. Como
escritora, tem textos publicados em diversas publicações no Brasil e no exterior. Coordena o
clube de leitura escolar Neuromancers ((Dneuromancersclubede), especializado em literatura
fantástica. Co-organizou Transliteraturas (Oficina Editora). Participa de e organiza antologias
de literatura fantástica.
49
E PEA
Chris Hermann
com olhos faiscantes
e lábios de mel infinitamente
enquanto dure...
ela o fascina
você a beija Ê
e a sussurra a não descoberta que:
doçuras as suas mãos
não passam de patas,
embaixo da sua cama
há outras gatas,
por detrás das suas
falas de amor
só havia garganta
com manto de fogo
e corpo ardente
ela o arranha
vocês se assanham
envoltos por labaredas
vocês se incendeiam
gritam e se gozam
então ela o deixará,
continuará gata
e você, anta
é Chris Hermann é escritora/poeta, musicista, editora, tradutora,
i webdesigner carioca, radicada na Alemanha desde 1996. No Bra-
sil, estudou Literatura, Música e Webdesign. É pós-graduada em
Musikgeragogik na Alemanha. Organizou e participou de diversas
“antologias de poesia no Brasil e no exterior. É autora dos livros de
poesia: Gota a Gota (Scenarium, 2016), Cara de Lua (Sangre Edi-
torial / Mulheres Emergentes, 2019), dos romances Borboleta — a
menina que lia poesia, (Patuá, 2018) e Peccatum (Arribaçã, 2020),
É editora da Revista Ser MulherArte. www.christinaherrmann.com | www.sermulherarte.
com |http://anchor.fm/podsermulherarte
Déh Zabelêé
Os dias dilatam no trânsito da rotina
Amálgama de amor e de cansaço
Cruzam-se sonhos, desejos e laços
Resgatando aos poucos o fôlego da vida
Mãe!
Som vindo do sono e ainda dormido grita
Na escuridão do quarto de imediato a mulher abarca
A poesia transforma-se em efetiva dádiva
Onde falta tempo para escolher palavras
Onde vicissitude e presença se confundem
E o que fui já não me pertence
Sou outra desde que fui morada
As gotas dos meus seios te livram
O mal do tempo não te pega
O sopro que mora na minha cabeça
Está suspenso no bafo quente do céu
Ajalá, que eu chova para ser eu
52
Déh Zabelê [Débora Ramos] é natural de Garanhuns/PE e cidadã do mundo. Transita
em diferentes esferas da arte: artes cênicas, literatura, fotografia e música. É cantautora e
intérprete de inquietações silenciosas, poetisa, performadora, intérprete-pesquisadora em
Dança. Atuou no Teatro do Oprimido Berlim no grupo feminista “Madalenas” dirigido
por Bárbara Santos e pesquisa e repercute ritmos afro-brasileiros desde 2013. É produtora
cultural, capoeira, mãe de Zúli Ramos e formanda do Bacharelado Interdisciplinar em
Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas na UFRB/CECULT. É pesquisadora e
integrante do grupo de pesquisa LEEA — Laboratório de Etnomusicologia, Antropologia
e Audiovisual da UFRB.
53
BORACO
Michaela v. tchmaedel
É de um jardim inesperado Enquanto isso
nesta área semidevastada tento manter o amor
que volta-se a ter fé no amor. escondido num buraco
protegido das aves de rapina
A batalha é grega
perdida entre a beleza o amor numa toca de tatu.
e a força.
Rolos de feno secam
nos campos americanos
um infeliz escreve
jesus te ama
com o arado.
Michaela v. Schmaedel (1976) é jornalista de cultura, nasceu e
mora em São Paulo. Nos últimos anos, tem se dedicado à poesia,
além de escrever resenhas sobre literatura para jornais e revistas.
Cursou o Clipe (Curso Livre de Preparação do Escritor), na Casa das
Rosas, e oficinas de poesia com Angélica Freitas, Tarso de Melo, Is-
mar Tirelli Neto, entre outros poetas brasileiros. Coração Cansado,
editora Penalux, é seu primeiro livro de poemas.
54
MAPA MON
Daiana Moura
Eu adoro olhar
E ver a costa do Brasil
Se entregando na cama do mar
Para o colo da África
Fecho o olho e imagino
O abraço de África
Cobrindo a costa brasileira do mais
Rico e ético e idílico amor
as duas de conchinhas
repousando serenas
sem sombra de rancor
As placas todas tremelicando
As ondas nos aproximando
Fronteiras frágeis caindo
Com o rugido do bravio terremoto
do maremoto
do tsunami
O caos instalado
Com tantos abraços dados
E a terna America
Se amando e gemendo Calorosos brados
Ecoando pelo mundo
Como que dizendo:
somos o sul
O mais miserável
Dentre os miseráveis mundos
Que há dentro do mundo
Mas neste planisfério azul
Não há mais calor e mais amor
que abaixo de nossas nuvens
e sobre nossa terra quente
e grávida sempre
Solo louco e profundo
tão cheio de muros e dentes
de facas e foices
que entalam e sufocam
os exauridos viventes
Também divago na transa
sutil e mansa
leve
vagaroso e gostoso amar
Que o Panamá faz quando encosta na Colômbia
Bela imagem
E é nessa ponta
Que mora a ponte
Central com a Sul
e se tocando
irradiam linhas invisíveis
brilhos intensos
Cheiros, sabores, sementes e cores
Correndo como
o iluminado sangue
que a vida do corpo-america fez.
Medo, pena e certa angústia
eu carrego
com o corpo grande e pesado dos Eua
55
56
segurando firme e rude
todo o dorso do México
E essa costa corpo-vivo
berra e anseia
novas páginas nos livros
E daí para cima
não tenho desejo
Daí para cima o mundo
parece o mais impiedoso
cruel e vergonhoso
Gelado polo
dos relacionamentos abusivos
De mais a mais
O que realmente me enche
de somas e de sonhos
é pensar em entrar
bem rapidinho por Portugal
- entendendo que tudo deles
que há de belo lá
Pertence a nós
dos nossos avós daqui
Dai caminhar pela Espanha
Por que descendo
tem o rumo mais certo
A espanha dá um selinho em Marrocos
E de lábios trêmulos e marejados olhos
meus pés cruzam o mundo
E voltam para a terra mãe
são as cores, as tintas, Os gritos
Os lenços esvoaçantes que me lembro
sem nunca ter ido
mas eu sei que é por ali
que meu coração inicia
novo bater
descendo e auscultando
Os velhos sempre novos
tambores que guiam a vida
Mesmo quando silenciam
Murmuram em salamaleicos
vibram em “uis” e “mercis”
Porque toda gente
Assim como toda terra
sempre viva
Sabe bem de onde
Como
E porque tudo começou
É assim que eu
danço os amores
e os conflitos do mundo
Pensando nos beijos e abraços
No vibrar da minha terra
Que aquece minh'alma
Que alivia meu cansaço
de tão árida
nem deixa a lagrima cair no chão
As águas que secam
a meia face
sabem que nem deveriam
nem poderiam existir
não haveria razão motivo ou circunstânciar
na história que pudesse aceitar
o meu lamento
que é o lamento mesmo da terra
da minha
que é de todos
que é passagem apenas
57
58
e nada mais
Olhando a bola
-ainda que a desejem plana
que num incessante girar sobre si mesma
E por outros maiores espaços ganhar
Quando penso nas porções de elemento
terra que a terra tem
Desejo estar lá
E lá pisar
e lá habitar
nem que por instantes
e sinto na densidade dela
que ela sou eu
e eu sou ela
e que ela não me pertence
como eu não pertenço a ninguém
- sou também passagem
Que permitam as deusas
de todas essas terras
que a Terra divinou para si
que eu possa criar
e adivinhar
nela mesma o desenho
dos meus pés
deles dois,
cheinhos de dedos
E não dos sapatos
Desenharei a pegada
mais leve e mais grata
mais terna e mais gentil
em cada uma dessas porções
de américas e áfricas
que de ninguém são
sendo de todos ao mesmo tempo
só por ir
só por estar nelas
e assim em mim
que me permitam
essas mesmas deusas
que eu nunca machuque
que minha mão nunca em sangue
de nenhum povo se suje
que nenhuma ruindade
minha cause maldar
Que meu corpo e minha arte
soprem semeares
de risadas boas, amores críveis
e profundos pensares
sobre as dores
para que possam cessar
e sobre justiça que venha
sem tanto tardar
que de sonho em sonho
meu eu se espalhe
que meu leve pisar
seja cura
seja o elo que junta as peles
para cicatrizar as feridas
tão abertas
tão grandes
tão expostas e tão doídas
Assim fazendo
as deusas também permitirão
- eu sei porque nós nos sabemos
juntas que cada pedaço de terra
que cada porção de chão
59
60
conhecido ou não
seja barro
mole ou duro
que num (n)ovo molde
transforme e cole
também (e com as graças delas)
as feridas do meu coração
Daia Moura é atriz, performer e arte-
educadora. Mestra e doutoranda em
educação pela UFScar-Sorocaba. Membro
do NEGDS - Núcleo de Estudos de Gênero,
Diferenças e Sexualidades da Ufscar e do
projeto-coletivo Mulheres e Luta. Integra
a Plataforma de Pesquisas Cunhãântã, o
Coletivo Cênico Mulheres de Utopias e
as Redes Feministas Interpretas e Mulher
em Perspectiva. Viandante utópica que
acredita no poder revolucionário da arte
e do amor.
62
COLETIVA
A coletiva “baRRósas” foi criada
por moradoras do Barroso, um bairro
periférico da cidade Fortaleza - CE.
A proposta da coletiva surgiu após a
segunda edição do “Slam Violeta”,
batalha de poesia do Conjunto Violeta,
localizado ao lado do Barroso; no qual
não havia participação feminina, embora
este fosse seu maior público. Neste
contexto, decidimos criar um sarau no
bairro Barroso realizado apenas por e
para mulheres. Mas, diante da pandemia
(Covid-19), a ideia de realizar o sarauteve
que ficar em segundo plano, surgindo,
então, a proposta de criar uma página na
plataforma Instagram, a qual demos o
nome de “baRRósas”, um trocadilho que
representa Barroso no feminino. A nossa
coletiva, atualmente, é composta por 11
mulheres e tem como objetivo principal
trazer visibilidade para a(s) literatura(s)
feita(s) por mulheres e incentivar/valorizar
o processo de escrita, principalmente,
das mulheres que moram nas periferias.
BARRÓSAS
A“baRRósas” é uma coletiva autônoma,
que (re) existe possibilitando momentos
de união e de fortalecimento para
todas nós que compomos a coletiva,
além de também buscar possibilitar
espaços de liberdade e esperança para
outras mulheres. Agenciamos, assim,
vivências que buscam contribuir,
cada vez mais, no que diz respeito,
principalmente, ao enfrentamento de
problemáticas estruturais que perpassam
nossas realidades, como o machismo,
o racismo, a transfobia, entre outras.
Problemáticas estas que perpassam os
espaços, inclusive, artísticos, de nossas
“quebradas” com muita intensidade.
63
A AT
E = mn |
Imagem: acervo da Coletiva.
Na Foto (atrás) da direita para esquerda: Lais Futália (Ig: (Dlais.eutalia), Bruna
Sonast (Ig: (mbsonast.), Anna Silva (Ig: (mthisartstudio), Fernanda Teixeira
(Ig: (Dnandadango), Éder Abner (da Biblioteca Viva Barroso), Lúcia Viana
(Ig: (Dflor indefinida), Raphael Montag (da Biblioteca Viva Barroso). Na
frente: Gessica Gomes (Ig: (Dmagazzart), Hevila Coelho (Ig: (Dhevilacoelho)
e Karyla Freitas (Ig: (Dkaryla.freitas).
PO QUERTASESCREVER
SRB E A GUERRA INTERNA
lais Futália
sobre a batalha diária pra conseguir o pão
mesmo esse pão sendo amassado
nas minhas costas
e o diabo nem tem nada com isso
queria falar sobre a guerra travada
esquina versus outra rua
em que os integrantes desses exércitos
nem sabem o motivo da matança anunciada
tô muito cansada pra falar sobre isso
só quero botar as pernas cima
y
fumar meu cigarrinho pra esquecer dos b.o.
mas, essa semana
uma mãe não pôde velar seu filho
e eu chorei
ontem eu li uma puta poeta da cidade
que falava sobre guerra e cotidiano
falava sobre conseguir o pão e proteção
mas só consigo pensar no cuidado e medo
de ver os meus ao chão
ontem avisei uma conhecida querida
para sair da rua
porque a coisa não tá brincadeira
e hoje eu bebo minha gelada
e peço que as espumas do mar e da cerveja
nos banhem de proteção
e que bebamos intuição
proteção, proteção!
Lais Eutália é historiadora em formação pela universidade
federal do ceará. escritora, professora, poeta e dentre todas as
coisas - vivedora. filha dos céus e mares, ama os ventos de
agosto e tem mão boa para plantas. lança seus escritos na (&)
escritasvulcanicas e publicou antologia “amor nos tempos de
lonjura” pela mira da janela”).
Lúcia Viana
O quarto... Houve um tempo que
eu não podia sair do quarto. O que é
bem lamentável, pois me fazia sempre
dentro dele: meu pequeno mundo, uma
prisão covarde. Hoje, corro mundo
a fora, quebrei as paredes do quarto,
derrubei, para nunca mais levantá-las.
E nesse desespero de querer viver,
correr rumo ao tempo perdido, sair
do espaço apertado, meu eu se fundiu
com o mundo, e as quatro paredes são a
E RR A
minha fobia. Me dói no peito lembrar
dessa dor, de tirar o batom da boca e de
tirar os brincos com medo de ser vista...
Limpar os lábios com tanta força que
sangrava. Não tem água que tire a minha
maquiagem e não tem paredes que me
façam parar mais.
E do quarto, só me resta a lembrança
amarga.
Lúcia Viana - “Me chamo Lúcia Castelo Viana, escritora,
poetisa e fotógrafa. Estudante de Letras português francês na
4 UECE, escrevo há 15 anos. Sou transativista, sou participante
))-— - da baRRósas, desde seu princípio. Como costumo dizer, sou
uma mulher perdida em um corpo qualquer”
Bruna tonast
à Carolina,
dizia não saber escrever poemas sociais, sabe?, engajados... mas, as vezes,
dessas vezes que são muitas vezes, pensava se existia isso de poema desengajado,
sem socializar nada, como se fosse cada um de nós um ser isolado de qualquer coisa
outra que nos rodeia, feito quatro paredes de um muro de Berlim esquizofrênico.
e eu nunca soube o que era a fome, tão farta de afetos e de comida, olhando
o amor com olhos fáceis e a comida como regra, nunca exceção; mas, excedendo
tudo, assim, e sempre assustada com a violência da insensibilidade.
dizia não saber escrever poemas sociais e engajados, para além das gavetas
e das ausências, como se existisse isso de desengajamento antissocial: existe? é
de comer? faz chorar?
é que eu sempre achei que o amor fácil e a consciência de assumir todos os
atos, em especial as palavras, me redimia das regalias que quase sempre ainda tive,
e, no fim, acho que meu ato mais honesto foi apenas o de ser mulher...
nunca soube da fome, que transforma os olhos e decepa as palavras, mas, te
escrevo um poema, assim, para que resistir seja não deixar de sonhar... sonhando
(n)a tua poesia...
e eu queria tanto adentrar teu quarto mais mulher, mais forte... (a)colher cada
um dos teus papéis...
para que talvez assim, talvez só assim, fosse eu gente melhor.
Bruna Sonast, estudante da e pela linguagem-vida, me (des)
(re)faço poeta, escritora independente; tendo lançado de forma
independente meu primeiro livro de poemas “vestígios”, em
2020. fiz graduação em letras português e mestrado em linguística
aplicada, na uece. componho a coletiva “baRRósas” e as “escritas
vulcânicas.
67
70
TRANSFOBIA
RECREATIVA
A CONSTRUÇÃO DO EIGAR
DAS TRAVESTIS
NO IMAC RNAR TIO
PA SOCTEDADE” BRASTEETDA
ATRAVÉS DO HUMOR
Elisha Silva de Jesus
Estereótipos raciais e de gênero
permeiam a forma como são represen-
tadas as mulheres trans [1], no Brasil.
Comumente são retratadas nas mídias
enquanto caricaturas engraçadas, exage-
radas, cômicas e que fazem as pessoas
rir ou são retratadas como personagens
controversos, ambíguos os quais tendem
a enganar as pessoas nas estórias. Por
décadas ainda somos vistas como mar-
ginais, bandidas, prostitutas e perigosas,
principalmente na figura da travesti, re-
tratada dessa forma em mais de 80% dos
noticiários sobre assassinatos e crimes,
nas mídias, jornais, revistas e programas
televisivos informativos [2]. É corriquei-
ro a propagação de programas humoris-
ticos que retratam as travestis através
de estereótipos negativos, banalmente
relacionadas à prostituição e a fraude
da imagem das mulheres cisgênero [1]
para conseguir homens cis. Nas relações
sociais, costumeiramente mulheres cis-
gênero se sentem ofendidas ao serem
comparadas com as mulheres trans, o
que na maioria das vezes é reproduzido
em tom jocoso, pejorativo e com o intui-
to de gerar satisfação cômica por meio
de piadas. Até mesmo dentro da comu-
nidade trans, mulheres trans negras são
ridicularizadas por causa de seus traços
fenotípicos, como formato do nariz e o
cabelo crespo, lidas como inferiores na
margem das margens.
São inúmeras situações vexató-
rias, constrangedoras e cômicas onde
nós mulheres trans, sobretudo negras
somos vistas, na fronteira entre os gê-
neros ou colocadas como personagens
engraçados e traiçoeiros. Não é a toa que
na última década as mudanças sentidas
por este segmento da população perpas-
sa a cultura. Ganhamos um pouquinho a
mais de espaço nos programas, novelas,
séries e minisséries. Estes programas
tentam, ainda que de forma tímida, cons-
truir um novo imaginário do que seja a
transexualidade pela figura transgêne-
ro. Contudo, muitos destes programas
reproduzam uma imagem patologiza-
da de que vivemos no corpo errado ou
existimos para gerar entretenimento ou
ainda nos retratam pelo viés da dor e
do sofrimento. A minha proposta neste
artigo é refletir sobre a transfobia recre-
ativa, OU seja, a maneira através da qual
a imagem da mulher trans é construída
por meio de piadas, situações vexatórias
e do humor na construção de noções so-
ciais associadas a inferioridade de nos-
sos traços fenotípicos e estéticos, o que
consequentemente inscreve nosso lugar
na sociedade.
Proponho a reflexão a partir do li-
vro “Racismo Recreativo”, escrito pelo
Adilson Moreira [3]. Em poucas pala-
vras, O autor argumenta que o humor é o
modo através do qual são inscritos este-
reótipos morais e materialmente degra-
dantes sobre o povo negro no imaginário
social, o que consequentemente perpetua
relações de poder e o lugar social destas
pessoas. Nem todo humor é racista, mas
o humor racista tem como objetivo gerar
determinado sentimento de superiori-
dade racial através da satisfação psico-
lógica das pessoas que o reproduzem.
Através da psicologia social do humor,
o autor destrincha a construção dos este-
reótipos racistas direcionados a homens,
mulheres homossexuais negros. O autor
tem um capítulo para falar sobre o este-
reótipo da bicha preta, tomando o caso
do personagem Vera Verão, vivido por
Jorge Lafon.
Ainda que Adilson não fale espe-
cificamente de pessoas transgênero, as
ideias contidas em seu livro sobre os pro-
jetos de racialização, conceitos de micro-
agressões, psicologia social dos estere-
Ótipos e dos estigmas, psicologia social
do humor e racismo recreativo podem
ser usadas para reflexão acerca da forma
como o humor é usado para legitimar
relações de poder e consequentemente
justificar o lugar historicamente ocupado
por determinados grupos sociais. Ade-
mais, a violência cometida contra tra-
vestis e transexuais negras corresponde
a mais de 70% dos dados estatísticos [2],
o que evoca a necessidade de olhares in-
terseccionais [4] e [5]. A indissociabili-
dade dos marcadores da diferença, como
racismo e transfobia, permite a reflexão
sobre como essas opressões tornam a
vida de travestis negras vulneráveis num
contexto dentro do qual o Brasil tende
a negar tanto a existência do racismo,
quanto da transfobia por meio do mito
da democracia racial e da igualdade de
oportunidades e direitos.
71
72
HUMOR E REPRESENTAÇÃO
SOCIAL
O humor pode ser compreendido
como resultado de comunicação ou ação
através da qual se induz uma pessoa ao
riso, devido a natureza jocosa, estranha
ou inesperada. Essa ação ou comunica-
ção pode ser verbalizada, expressa por
meio de gestos ou atos visuais capaz de
gerar uma reação emocional desde um
simples riso até gargalhadas. Por mais
que pessoas possam rir sozinhas, o hu-
mor está atrelado ao contexto cultural
onde ocorre, porque está relacionado
ao fato de que o encontro entre mais
pessoas pode ser uma fonte de prazer.
O humor pode tornar as relações huma-
nas mais agradáveis, na medida em que
permite as pessoas interagir de modo
informal. De modo criativo, o humor
envolve o processamento de estímulos
de mecanismos mentais na evocação de
memória, jogo com palavras, ideias e
simbolos. Além disso, o humor produz
reações emocionais, através do estímulo
de prazer proporcionado pelo momento
cômico, proporcionando momentos de
prazer, relaxar do corpo e da mente pelo
momento de interação social. É uma for-
ma de relaxar das tensões e adversidades
sociais provocadas por uma sociedade
estressante, racista, transfóbica e ma-
chista, o que muitas leva certos grupos
minoritários a satirizar sua própria con-
dição [4].
Então, o humor está relacionado
com as informações a serem processa-
das, geralmente decorre da comparação
entre grupos sociais e raciais, através da
qual grupos sócio raciais podem se sentir
superiores. Adilson Moreira discorre so-
bre as teorias do humor, dentre as quais
a teoria da superioridade pressupões
que o humor foi desenvolvido desde os
tempos clássicos ocidentais como uma
maneira de diferenciação entre os grupos
dominantes e inferiores, marcando seu
lugar e status na sociedade, satirizando
a condição dos inferiorizados. As teorias
psicanalíticas sugerem que o psiquismo,
através do humor, produz uma descarre-
ga de energia mental por meio do caráter
cômico de uma frase, história ou gestos,
com o intuito de gerar uma satisfação
psíquica [3].
Diante disso, o racismo e a trans-
fobia por meio do humor reproduzem
estereótipos negativos, o que gera a con-
cepção de que membros desses grupos
possuem defeitos morais, por isso sem-
pre estão envolvidos em situações ridi-
culas e degradantes no contexto criado
pela história humorística. Isso reforça a
noção social de que estes defeitos morais
seriam inatos, devido à associação com
traços fenotípicos. O humor transfóbi-
co e racista causa danos psicológicos
e sociais nas vítimas desse tipo de mi-
croagressão, degradando-as moralmente
e materialmente devido às percepções
negativas construídas sobre a imagem
delas. Estas manifestações estão relacio-
nadas ao contexto social na qual ocor-
rem. O humor racista e transfóbico existe
estrategicamente coma finalidade de per-
petuação dos estereótipos responsáveis
pela marginalização material e moral dos
grupos minoritários e as piadas tem sido
usadas como forma de legitimidade des-
te lugar social. A transfobia recreativa e
racista cria uma sensação de satisfação
psicológica nas pessoas que se sentem
superiores, o que cria uma certa noção
de solidariedade entre os grupos cultural
e político dominantes, ajudando a selar o
pacto narcísico da branquitude [6] e do
lugar social das pessoas cisgênero em
detrimento da população trans.
Transfobia e racismo recreativos
são práticas culturais legitimadas por
quem está socialmente autorizado a
construir sentidos e significados cultu-
rais e atribuir-lhes aos grupos minoritá-
rios alvo deste humor. A seguir estão al-
guns exemplos de como o humor racista
e transfóbico é propagado nas mídias,
como televisão e canais no youtube.
Certos programas humorísticos
usam imagens de pessoas negras e trans
em situação humilhantes e degradantes
para gerar situações cômicas, engraça-
das e vexatórias. Em tom jocoso, ato-
res caracterizados em blackface [7] e
transfake [8] criam personagens estere-
otipados, com uso de tintas para repre-
sentar a pele negra, narizes grandes e
lábios imensos para criar personagens
moralmente rebaixados e culturalmen-
te inferiores, com o intuito de fazer as
pessoas rirem da situação. Em relação
às pessoas trans, geralmente homens cis
usam vestidos, brincos e maquiagem para
representar personagens exagerados.
Alguns programas pagam para mulheres
trans aturem em situação humilhantes
pelo fato de serem trans, aproveitando-se
de sua vulnerabilidade social pela falta
de empregabilidade.
Existe um programa onde o teles-
pectador é convidado a “descobrir”, en-
tre as mulheres disponíveis, todas bran-
cas, quem é a transex. Então, elas posam
em trajes de banho e até ficam nuas sob
o véu transparente de tecidos de modo e
estimular a criatividade do telespectador.
Em outro programa, homens na praia são
convidados a passar protetor solar em
mulheres, todas brancas, e depois são
“surpreendidos” com a notícia de que
se trata de uma mulher trans. Em outros
episódios deste programa de humor, ho-
mens são atraídos por uma proposta de
assistir gratuitamente cenas de strippers,
mas deixam o estabelecimento de forma
agressiva ao se deparar com transexu-
ais. Em outro programa humorístico, um
homem cis realiza blackface de forma
que os traços fenotípicos de uma pessoa
negra são exagerados (nariz largo, lábios
73
74
grossos e rosa) e transfake para dar vida
a uma personagem travesti pedinte no
metrô.
Ao utilizar do estereótipo da mu-
lher branca, loira, esbelta e curvilínea,
homens cis são atraídos para “se apro-
veitar” delas ou então brincam com o
imaginário dos homens acerca dos traços
fenotípicos dessas mulheres e que pos-
sam atraí-los. O humor está justamente
imbricado na descoberta de que se tra-
tam de mulheres trans, o que leva os
homens ao constrangimento. Além de
propagar o estereótipo de que mulheres
trans são fraude, ainda corroboram com
o estereótipo de atração sexual a partir
da exaltação de atributos da feminilidade
branca. Se as mulheres fossem trocadas
por mulheres negras, o humor não teria
graça, porque justamente brinca com
aquilo considerado esteticamente atra-
tivo. Além disso a transfobia recreati-
va atinge indiretamente as pessoas que
se sentem atraídas por mulheres trans e
travestis, na medida em que humilham
e envergonham essas pessoas por meio
de piadas.
Em outro programa, intitulado qua-
dro da verdade, a busca incessante por
audiência leva à “revelação bombástica”
de que um homem cis casado com uma
mulher cis, sente atração por mulheres
trans. Em outro quadro de piadas, uma
atriz branca, magra e loira, oferece a ven-
da de fotos íntimas em troca de dinheiro.
Após seduzir os rapazes, os quais pagam
pelas fotos, ela mostra imagens íntimas
de mulheres trans não redesignadas, o
que leva os homens a se sentir ofendi-
dos e agressivos. Em outro episódio, ho-
mens cis são “humilhados” ao descobrir
que as mulheres que eles paqueraram
na balada, são trans. Em outro quadro,
homens são atraídos pela voz de mulhe-
res e reagem agressivamente ao notar
que se tratam de mulheres trans. São
incansáveis as modalidades existentes
para colocar mulheres trans em situações
vexatórias, degradantes e humilhantes.
Nestes programas, nota-se que o humor
está atrelado à “revelação” da identida-
de das atrizes, sempre utilizando-se do
estereótipo de beleza branco ocidental
para “confundir” as “vítimas”. O racis-
mo aqui é velado, ao atribuir somente
às mulheres brancas noções atreladas
ao desejo e à atração (mas, qual mulher
negra gostaria de ser colocada nessa si-
tuação vexatória, não é mesmo?) Em
novelas, filmes e peças de teatro também
são utilizados estereótipos relacionados
ao exagero e à hipersexualização para
retratar personsagens trans a partir do
transfake.
Isso cria uma noção distorcida de
que mulheres trans seriam homens tra-
vestidos de mulher. Inclusive, o termo
travesti foi totalmente ressignificado.
Primeiramente usado durante a colo-
nização para criminalizar a existência
de travestis traficadas de África para o
Brasil, jesuítas proibiram que homens
se vestissem de mulher, dai a ideia de
travestismo e assim ficaram conhecidas
as pessoas que transgrediam as normas
de gênero: travestis [9]. Termo ressigni-
ficado e hoje politicamente reivindicado
como pertencente ao gênero feminino
enquanto identidade. A luta contra o
transfake ganhou força na última década
graças a luta dos movimentos sociais e
a propagação das informações via redes
sociais. Ainda assim, houve resistência,
ao argumentarem que não existem pes-
soas trans qualificadas para os papeis,
explicitamente uma justificativa trans-
fóbica através de microagressão (apro-
fundado mais adiante) dirigida a este
segmento da população [8].
Os programas televisivos e demais
programas veiculados online, propagam
uma representação social daquilo que é
considerado verdadeiro e falso em ter-
mos de identidade de gênero. As mulhe-
res cis são colocadas enquanto verda-
de sobre o ser mulher, ao passo que as
mulheres trans e travestis são colocadas
na categoria do falso, da fraude. Além
disso, mulheres trans são sempre hiper
sexualizadas e seus traços fenotípicos e
sociais são exagerados. Seja por meio
dos programas, novelas, filmes e mi-
nisséries com intuito recreativos ou por
meio da divulgação nos boletins infor-
mativos do nome de registro de travestis
e mulheres trans assassinadas. Quando a
travesti é negra, tende a aparecer 8x mais
na mídia enquanto criminosa ou prosti-
tua assassinada, ao passo que travestis
brancas são comumente representadas
como mulheres trans no entretenimento.
O que denota o lugar da travesti branca e
da negra ao mesmo tempo que reforça o
entendimento higienista do termo trans.
RACISMO, RACIALIZAÇÃO,
TRANSFOBIA E AS
MICROAGRESSÕES
O racismo pode ser compreendido
como a hierarquização de um grupo de
pessoas brancas sobre grupos de pessoas
negras através de séculos de opressão.
A racialização é usada para classificar
o modo pelo qual sentidos culturais são
atrelados a determinadas característi-
cas físicas para que um grupo seja vis-
to como diferente, em termos raciais.
No contexto pós colonial, a dominação
branca ocidental precisava justificar não
apenas as atrocidades dos séculos ante-
riores, como também precisava justificar
a continuidade da inferioridade dos ne-
gros na nova ordem mundial capitalista.
O uso da ciência, da política e da cultura
foram fundamentais para esse processo
[3].
A racialização é a maneira través
da qual são construídos significados aos
corpos pretos, atribuindo-lhes diferen-
ciação a partir dos atributos fenotípicos,
com objetivo específico: marcar as re-
75
76
presentações sobre poder na sociedade.
Existe um sistema que atribui sentidos
aos traços fenotípicos de alguém para
que a dominação de um grupo sobre o
outro possa ser legitimada:
“Assim, devemos entender a raça
como projetos de dominação, base-
ados na hierarquização entre grupos
com características físicas distintas.
Ao se construir minorias raciais como
grupos com traços morais específicos,
membros do grupo racial dominante
podem justificar um sistema de domi-
nação que procura garantir a perma-
nência de oportunidades sociais em
suas mãos” (MOREIRA, 2019 página
41).
Neste sentido a branquitude consti-
tui-se historicamente como hegemônica,
ou seja, sua cultura, religião, sistema
econômico, sexualidade, traços estéti-
cos, estrutura política e a tradição cul-
tural se tornaram parâmetros universais.
Isso aconteceu e acontece até hoje por
causa da inferiorização da negritude em
todos os aspectos supracitados. Quando
digo universais, isso significa que a bran-
quitude é alocada como representação
máxima do que é considerado humano
belo, moralmente aceito e sexualmente
saudável, o que situa as pessoas brancas
num lugar específico dentro das hierar-
quias sociais em função do significa-
do que pertencer ao grupo dominante
possui no mundo contemporâneo. Este
sistema de dominação permite que as
oportunidades sociais estejam voltadas
aos brancos.
A construção dessa hegemonia pas-
sa obrigatoriamente pela deslegitimação
e inferiorização das pessoas negras atra-
vés da produção de diversas narrativas
científicas, políticas e culturais destina-
das a legitimar a exploração econômica
de pessoas classificadas como negras.
Então, o racismo é o centro norteador
de práticas de atribuição da imagem cul-
tural inferior dos negros para justificar
a superioridade branca. Dessa forma a
construção das identidades oposicionais
racializam grupos sociais de formas dis-
tintas em função das relações de poder
que pode ser exercidas nas dimensões
culturais, políticas e econômicas histo-
ricamente construídas.
Neste sentido, a aversão diz respei-
to aquelas pessoas explicitamente pre-
conceituosas: racistas e transfóbicas, as
quais não se relacionam e evitam estar
próximas de pessoas negras e trans. No
plano simbólico pessoas racistas e trans-
fóbicas tendem a desvalorizar aspectos
culturais relacionados às pessoas pretas
e trans, não consumindo sua arte, a me-
nos que seja para fazê-las rir. No plano
institucional, atos praticados por repre-
sentantes de instituições públicas e pri-
vadas, implícita ou explicitamente, po-
dem prejudicar os grupos historicamente
marginalizados. Por exemplo, quando o
presidente da república nega a existência
do racismo, quando casas legislativas
criaram leis contra trans nos esportes e
contra o uso de banheiros públicos[3].
O psiquiatra norte americano Ches-
ter Pierce classificou as microagressões
como uma faceta do racismo na criação
de imagens deturpadas de pessoas ne-
gras o que consequentemente gera “com-
portamentos conscientes e inconscientes
que expressam de maneira sutil despre-
zo por minoriais sociais” (MOREIRA,
2019 página 52). Essas microagressões
são expressam em três tipos principais:
microassaltos, microinsultos e microin-
validações.
Os microassaltos dizem respeito aos
atos que expressam desprezo ou agressi-
vidade de uma pessoa em relação a outra
por causa de seu pertencimento social.
Essas expressões podem ser verbaliza-
das ou por meio de comportamentos que
denotem diferença de valor entre as pes-
soas, geralmente propositais através da
expressão de estereótipos negativos em
relação ao outro. Trata-se do cotidiano,
quando não se é cordial com pessoas de
determinados grupos sociais, evita-se
estar próxima delas e dispensam a pes-
soa de estar no mesmo grupo. Exemplos
supracitados são o blackface e o trans-
fake no sentido de que pessoas pretas e
trans são profissionalmente excluídas
dos processos de criação e veiculação
do entretenimento, mesmo que o tema
dos trabalhos sejam suas próprias vidas.
Os microinsultos dizem respeito
ao modo com a comunicação exerce a
expressão ou “encoberta ausência de
sensibilidade à experiência à tradição
ou à identidade cultural de uma pessoa
ou grupo de pessoas” (MOREIRA, 2019
página 53). Exemplo disso são mulheres
que odeiam ser comparadas às travestis
ou que são ridicularizadas por se pare-
cerem com travestis, uso de estereótipos
femininos para se “fantasiar de traves-
ti”, debochar de cabelos crespos, traços
negros fenotípicos e traços fenotípicos
de mulheres trans, como ombros largos,
ausência de quadris, entre outras formas
de microinsultos. Até mesmo quando
historicamente dizem que não existimos
ou que somos uma fraude. Há quem diga
que a transexualidade nunca existiu em
África e em outros continente e que isso
seria uma invenção moderna, quando
na verdade, enquanto seres humanos,
estamos neste planeta há milênios.
Por fim, as microinvalidações acon-
tecem quando as experiências, pensa-
mentos e interesses de pessoas de grupos
sociais marginalizados são caracteriza-
dos como irrelevantes pelas pessoas per-
tencentes aos grupos sociais e raciais
dominantes. Muito comum são os casos
onde pessoas negras, homossexuais, tra-
vestis e mulheres contam experiências
de discriminação, mas são invalidadas
77
78
com expressões do tipo “não é bem
assim”, “você exagerou”, “isso não é
preconceito” ou não são sequer somos
ouvidas.
CONCLUSÃO
Diante do exposto, o racismo e a
transfobia podem ser compreendidos
através das formas sutis como são ex-
pressadas na sociedade, através das mi-
croagressões, instituídas como formas
sutis de demarcação do lugar social que
pode ser ocupado por estes segmentos
da população. Os microassaltos roubam
nossos trabalhos, as microinvalidações
perpetuam o epistemicídio e depreciam
nossa intelectualidade, as microinvalida-
ções desumanizam nossas experiências
de vida.
Enquanto crime, expressões racis-
tas explícitas tendem a gerar incômodo
nas pessoas, no entanto as microagres-
sões tendem a ser comum, porque de
forma implícita expressa-se determina-
do sentimento de superioridade de um
grupo social para com outro [3], seja
de pessoas brancas para com pessoas
pretas, heterossexuais para com homos-
sexuais, pessoas cisgênero contra pes-
soas transgênero e outras formas duais
de construção das diferenças, as quais
podem estar intercruzadas, o que coloca
travestis negras enquanto grupos atingi-
dos por múltiplas microagressões.
A análise da transfobia recreativa
no Brasil demonstra que muitos igno-
ram a existência desta prática social en-
quanto crime contra a vida de travestis,
transexuais e demais pessoas trans. Al-
guns compreendem a transfobia recre-
ativa enquanto humor e reagir contra
isso seria exagero (microinvalidação). A
transfobia recreativa reforça a ideia de
que comportamos imorais relacionados a
enganação, criminalidade, prostituição e
hiper sexualização estariam inscritos nos
traços travestis e mais ainda nas traves-
tis negras, na sua qualidade biológica,
portanto imutável. Isso automaticamente
inscreve uma relação direta entre carac-
terísticas fenotípicas e a qualidade moral
das pessoas trans e negras. Quando uma
de nós reage à transfobia somos lidas
como violentas e toda a comunidade é
estigmatizada. É violento quem inaugura
a violência, como diria Paulo Freire, não
quem reage a este ato incitado por ou-
trem. Recentemente o judiciário brasilei-
ro passou a enquadrar a transfobia como
crime de racismo, o que por vezes pode
ser visto como injúria racial, ou seja, um
ato de natureza pejorativa individual e
pontual dirigido a uma pessoa trans por
meio de palavras e gestos que levem ao
dano moral. Transfobias simbólicas e
institucionais ainda estão longe de serem
vistas como uma ameaça à cidadania e
à democracia.
São inúmeras maneiras de conside-
rar o significa da transfobia, ainda mais
num país cujo legislativo sequer esta-
beleceu legislação sobre o tema, apro-
ximando-a apenas de um crime já exis-
tente, como mais uma gambiarra jurídica
sobre a vida das pessoas trans no geral,
através de ações diretas de inconstitucio-
nalidades do Supremo Tribunal Federal.
A transfobia é institucional.
Segundos os dossiês elaborados
pela Associação Nacional de Travestis
e Transexuais — ANTRA (2017, 2018,
2019, 2020) mais de 90% dos assassi-
natos de pessoas trans não são solucio-
nados e quando são registrados casos
de violência a maioria é arquivada. A
grande maioria das pessoas trans não
concluíram o ensino fundamental, prin-
cipalmente negras e pobres. 13 anos é
a idade média com que são expulsas
de casa, o que as coloca numa situação
de extrema vulnerabilidade, onde 90%
acaba cooptada pelas redes de tráfico de
pessoas, exploração sexual e uso de dro-
gas. Após duas décadas de depreciação
de sua saúde mental e marginalização
de suas vidas, 35 anos é a média de vida
dessas pessoas, sobretudo travestis ne-
gras e pobres. O padrão de feminilidade
vigente ainda fazem que elas recorrem
a procedimentos estéticos insalubres,
como uso de silicone industrial.
Para além destas estatísticas terri-
veis, este texto teve como objetivo ques-
tionar quais são as formas com que pes-
soas cisgênero reproduzem a exclusão
social das mulheres trans? E qual a rela-
ção entre o lugar social destas mulheres
e as piadas, chacotas, humor televisivo
com uso da imagem de travestis, consu-
midos cotidianamente? Você mulher, em
qual mulher você se reconhece? Quais
são seus parâmetros de humanidade, be-
leza, moral, ética? Você se reconhece no
corpo de uma travesti?
REFERÊNCIAS
[1] VERGUEIRO, 2016.VERGUEIRO, V. Pensando
a cisgeneridade como crítica decolonial. In:
MESSEDER,sS., CASTRO, M.G., and MOUTINHO,
L., orgs. Enlaçando sexualidades: uma tessitura
interdisciplinar no reino das sexualidades e das
relações de gênero [online]. Salvador: EDUFBA,
2016, pp. 249-270.
[2] ANTRA — Associação Nacional de Travestis
e Transexuais. Dossiês e Mapas dos Assassinatos
de Travestis e Transexuais. 2017. Disponível em:
<https://antrabrasil.org/assassinatos/> Acessado em
01/02/2021.
2018. Disponível em:
<https://antrabrasil.org/assassinatos/> Acessado
em 01/02/2021.
— 2019. Disponível em:
<https://antrabrasil.org/assassinatos/> Acessado
em 01/02/2021.
— 2020. Disponível em:
<https://antrabrasil.org/assassinatos/> Acessado
em 01/02/2021.
79
80
[3] MOREIRA, Adilson. Racismo Recreativo. São
Paulo: Sueli Careiro; polén, 2019. 232. Feminismos
Plurais.
[4] Manifesto do Coletivo Combahee River.
Traduzido por Stefania Pereira e Letícia Simões
Gomes. PLURAL, Revista do Programa de Pós-
Graduação em Sociologia da USP, São Paulo, v.26.1,
2019, p.197-207.
[5] CRENSHAW, Kimberlé. Tradução: mapeando as
margens: interseccionalidade, políticas identitárias
e violência contra mulheres de cor. In: Martins,
A.C. ; VERAS, E.F. Corpos em aliança: diálogos
interpretativos sobre gênero, raça e sexualidade.
Curitiba: Appris, 2020.
[6] BENTO, Maria Aparecida Silva. Pactos narcísicos
no racismo: branquitude e poder nas organizações
empresariais e no poder público. São Paulo, 2002
169p. Tese (doutorado) Instituto de Psicologia da
Universidade de São Paulo.
[7] RIBEIRO, Djamila. “Mulher negra não é fantasia
de carnaval?. Carta Capital, 2015. Disponível em
<https://www.geledes.org.br/mulher-negra-nao-e-
fantasia-de-carnaval/>. Acesado em 08/01/2021.
[8] FAVERO & MARRACI, 2018. Transfake e a
busca pela verdade na representação de travestis
e pessoas trans. Revista brasileira de estudos da
homocultura. Vol. 01, N. 04, Out. - Dez., 2018.
Disponível em: <www.revistas.unilab.edu.br/index.
php/rebeh> Acessado em 08/01/2021.
[9] MOTT, Luiz.
Homossexualidade no Atlântico Lusófono Negro”.
Revista Afro-Ásia, no. 33 (2005): 9-33, acesso
em <http://www.afroasia.ufba.br/pdf/afroasia33 .
pp9 33 Mott.pdf.>
“Raízes Históricas da
Elisha Silva de Jesus, paulistana, 26 anos.
Licenciada em Ciências Biológicas pela
Universidade Federal de São Carlos - UFS-
Car, campus Sorocaba e atual mestranda
em Educação, Comunidades e Movimen-
tos sociais no Programa de Pós Graduação
em Educação - PPGEd, na mesma Univer-
sidade. Sou pesquisadora no Núcleo de
Estudos em Gênero, Diferenças e Sexua-
lidades - NEGDS dessa mesma instituição
e faço parte dos projetos de extensão: Fe-
minismos, Sexualidade e Política - FSex-
Pol; Combate à Pandemia: fabricação de
álcool em gel para distribuição gratuita em
hospitais e do grupo Mulheres e Luta. Na
sociedade civil sou tesoureira na Associa-
ção Transgênero de Sorocaba e sou con-
selheira suplente no Conselho Municipal
dos Direitos das Mulheres em Sorocaba.
Estudo Educação, Direito ao Nome Social
nas Escolas, Biologia, História e Memória
de Mulheres Trans/Travestis Negras Bra-
sileiras.
SAUDADE
Yvonne Miller
Dá pra ter saudade de alguém que
você não conhece?
Não sou especialista em saudade, até
porque na minha língua materna esse
conceito não existe. Temos, isso sim,
palavras com significados parecidos:
Heimweh (saudade da terra natal ou de
casa), Fernweh (saudade de estar longe,
de viajar, de conhecer lugares novos),
Sehnsucht (desejo doloroso de algo ou
alguém).
Eu nunca tive Heimweh, sempre tive
Fernweh e vivia cheia de Sehnsucht da
Larissa quando namorávamos a distân-
cia. Mas saudade, saudade mesmo, no
verdadeiro e brasileiro sentido da pala-
vra, eu não sabia sentir. Aprendi isso há
três anos. Faz três anos que uma saudade
pontiaguda invadiu meu corpo e alma e
nunca mais me abandonou.
Logo eu, que sou difícil de lágrimas,
chorei feito criança quando ouvi a noti-
cia. Era 15 de março de 2018, um dia de-
pois, eu estava tomando o café da manhã
e ouvindo a Rádio Universitária e aí eu
soube. Da Marielle. Do assassinato. Da
sua família. Da dor. Da saudade. Saudade
dela, deles, minha. Soube também, com
o impacto que a dor e as lágrimas rom-
peram minha paz, que a saudade nunca
mais iria embora. Naquela manhã há três
anos, eu não conseguia parar de chorar
e choro até hoje nos dias 14 (e às vezes
também nos outros). Quantos já passa-
ram? 36 dias 14. 36 meses sem Marielle,
156 semanas, 1095 dias. Três anos.
Sim, dá pra ter saudade de alguém
que você não conhece, do mesmo jeito
que dá pra sonhar com um mundo di-
ferente. Um mundo em que o amor, o
respeito e a justiça social terão vencido
o ódio, a intolerância e a desigualdade.
Marielle lutava por esse mundo, com-
partilhava esse sonho.
Minha saudade dela é o luto do so-
nho-mais-bonito interrompido.
82
Mas não se engane: Marielle não
andava só. Eu também não estou só com
minha saudade, ela é coletiva. Coletiva
como o sonho de um mundo melhor,
coletiva como a luta por justiça, coletiva
como a primavera. Coletiva como Ma-
rielle. Não vão nos calar. Avante!
Yvonne Miller nasceu na cidade de Berlim
em 1985, mas mora, namora e se demora
no Nordeste do Brasil desde 2017. Escreve
contos, crônicas e literatura infantil em
alemão, espanhol e português. Tem textos
publicados em coletâneas, como Paginário
(Aliás Editora) e Histórias de uma quarentena
(Expresso Poema Editora). É cronista do
coletivo sócio-literário (Dbora cronicar e do
blog Escritor Brasileiro. Além de ficcionista
é autora e redatora de livros escolares.
Instagram: (Dyvonnemiller escritora
preta lésbica
= papo reto, sorriso no
", rosto, Marielle presente!
E pra seinspirar , se
|-mexêr / pra não esquecer
Mulher
eirante , |
mulherão
cercada de Rá 0º
prédios em filos tudo
acon str
Fonte: https://ctb.org.br/
4 UNFESFNIA
84
* Conceição Evaristo, no livro Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizon-
te: Nandyala, 2008
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.”
ANIS FAIR O EN SONHO CIPVV=ENOO
BESLOCAMENTOS
IMAGINÁRIOS, 2020
MONTEVIDÉU, SRUGUAI
Camila Fontenele
Visito o mar anualmente, como quem retorna para casa depois de uma lon-
ga viagem, como quem promete pra si próprio não se perder em terra firme. Um
compromisso firmado para me lembrar daquilo que não lembro que fui, de um
corpo-baleia, das minhas memórias que tem gosto de sal.
Camila Fontenele, 1990, São Paulo. É artista visual, pesqui-
sadora e, atualmente, assistente de curadoria da 3º edição de
Frestas — Trienal de Artes “O rio é uma serpente” (2020/2021).
Radicada na cidade de Sorocaba, mestranda no programa in-
terdisciplinar de Estudos da Condição Humana na UFSCar e
pós-graduada em Cinema, Vídeo e T'V: estética da imagem em
movimento no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo.
Suas investigações são atravessadas por questões como per-
tencimento, o corpo gordo atrelado à imagem da baleia como
fonte de cura e a possibilidade na criação de fugas e novas
paisagens através dos processos de desaparição/aparição. Mais
informações: www.camilafontenele.com e (Ig) (Dcamisfontenele
ás.
Cp as Nr, <
esa JRR?”
4 1º SJ
e. E: de Eva ”.
=
"ta
Ba,
% 4 -
- -
, a Ea
- o
« “2 '
ta a
z * “"
”, “ - a ”
hdi o
; NM À 4
"E
le qi
4 48 4 LA
RES aaa
”
E
“E.
E” fa
E
98
INFSFANINO E TONHO/CIPVV=HHOO
RARE A) es ARNO) SPSS O)
VEPARCMEL CGORTO
Julia Dbupim
Julia Pupim, 25 anos, nascida no interior de São Paulo. Cozinheira, uso a fotografia
para externalizar minhas inquietações. Trabalho apenas com fotografia analógica, gos-
to das experimentações que ela me proporciona e participo de todo o processo; revelo
e digitalizo minhas fotos em casa, usando tecnicas alternativas. As fotos publicadas
aqui fazem parte de um projeto, uma zine fotográfia chamada “Morro e não posso ve-
lar o meu corpo”, onde conto um pouco sobre meu luto e a trajetória de adoecimento
e morte de minha mãe. (Dn.anojnk
100
Birds. sou Vo Nou ser, mto!
COM meus Jum, ass 8 Luan CENAANAAN
AA pat GAL nn UA PAD RE A dr
a SS apr e SN SE AA pu
Jane Rd a por mas GE REAd Wu
opus stava ivan a a
Irepgihal ou ENO + 9 sutod. q
as ANAS Sela o Sp Su OBA NEGAR
sstimo Conssino, em Jedeo S> Vias VE
een,
meo Dat s & Ermo) od VD o O a
POLE Op OSS. ah
mo Jrmme.
A pa YO
SE rdenta NS apra. pane
a A MAN &Q po
ER RD A prima, TN AS
SYNC (Lavra, (ORE MA o echo QUO DO
Pita qa SOB MB sonau LER | rms
pes
101
mp ea!
O -
!
LIO
PARTICIPARAM DESTA EDIÇÃO
Capa
Águeda Amaral, fotógrafa, diretora e fundadora da Cabelo Duro
Produções. Dirigiu: Na Cena do Samba - Noel Rosa, 2010, finalista
na premiação da Revista BRAVO, Apuê, 2011 (Curta) na AIC -
Academia Internacional de Cinema, Maria Maria, 2011 (Curta
Metragem) — premiado em edital da TV Câmara e Música na Alma,
2013 -2014, sobre a música de rua Cubana, com filmagens em Cuba
e São Paulo. É co-produtora do longa, Hestórias da Psicanálise —
Leitores de Freud, Dir. Francisco Capoulade, 2015, No Gargalo
do Samba, 2017 - lançado na Rede EBC /'TV Brasil e em mais 16 países da América Latina
Atualmente é co-produtora do documentário A Descoberta do Mundo, um filme sobre Clarice
Lispector, dirigido por Taciana Oliveira. É produtora executiva da FILAFRO - Filarmônica
Afro Brasileira em Espetáculos Nacionais e Internacionais. Site: www.cabeloduroproducoes.
com
Ilustrações
Sofia Nabuco, 20 anos é ilustradora. Nasceu em São Paulo, mas
“* mora na capital mineira há sete anos. Tem ilustrações publicadas
m em revistas como OuroCanibal e Laudelinas. Em seu Instagram: (&)
= * rabiscofia, posta ilustrações diárias e divulga seus outros trabalhos.
Editoração
Taciana Oliveira - Comunicóloga, roteirista atua em direção e
produção cinematográfica, coordena e publica na plataforma di-
gital Mirada — www.miradajanela.com . Dirigiu “A Descoberta
do Mundo”, um documentário sobre Clarice Lispector. Tem no
prelo Coisa Perdida, livro de poemas.
Design Editorial
Rebeca Gadelha é Otaku, Gamer, Artista Digital e Geógrafa.
Tem um fraco por criaturinhas peludas e chá gelado. Participa
da Plataforma Mirada como Designer Gráfico e curadora.
Atualmente trabalha com edição de vídeo do projeto Literatura &
LIBRAS (instagram (Dliteraturalibras), escreve no Medium sob o
pseudônimo de Jaded. É autora de Reminiscências (Selo Mirada,
2020), livro de memórias. IG: ()ohmybecka
MIRADA